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Ceará Feminino 2026: Entenda por que o Novo Orçamento é uma Lição de Gestão no Futebol

Por Suleima Sena

No futebol, o tempo é um mestre severo, mas nem todos os alunos estão dispostos a aprender com as cicatrizes. No cenário cearense, a gestão do futebol feminino sempre foi tratada como um apêndice, uma extensão do humor e do sucesso (ou fracasso) das equipes masculinas.

No entanto, o anúncio do orçamento do Ceará Sporting Club para 2026 marca um ponto de inflexão. O aporte de R$ 1.268.266,67 para as Meninas do Vozão é mais do que uma cifra; é um novo capítulo de maturidade institucional.

O Trauma de 2023: A Cicatriz que Ensinou a Alvinegra

Para entender a relevância desse milhão e duzentos mil reais, precisamos olhar para o retrovisor. Em 2023, o Ceará viveu o seu “ano zero” de forma traumática.

Após o rebaixamento do time masculino para a Série B, a gestão da época optou pelo desmonte. O resultado foi desastroso: o abandono de um projeto que acabara de ser campeão da Série A2 e a exposição de atletas a goleadas humilhantes na elite nacional. Ali, feriu-se a imagem de uma instituição centenária. Foi o preço amargo de tratar a modalidade como gasto, e não como investimento.

R$ 1,2 Milhão: O Valor da Maturidade

Desta vez, o roteiro mudou. Mesmo com a permanência forçada na Série B masculina para 2026, o Conselho Deliberativo do Alvinegro não apenas manteve, mas elevou o investimento em 77% comparado ao ano anterior.

Ao projetar um valor que se aproxima do orçamento de 2022 (ano do título brasileiro), o Ceará sinaliza que compreendeu o óbvio, mas raramente praticado: o futebol feminino não pode ser a variável de ajuste para os erros do masculino.

A Antítese de Pici: O Contraste com o Rival

A decisão de Porangabuçu ressoa ainda mais forte quando observamos o movimento do rival. O Fortaleza, em um passado recente, seguiu a cartilha do retrocesso ao reduzir drasticamente o fôlego do seu departamento feminino após crises orçamentárias no masculino.

É a velha miopia de Pici que, infelizmente, ainda enxerga as mulheres como um “luxo” dispensável. Ignora-se que o licenciamento de clubes é uma via de mão única: a profissionalização é obrigatória, mas o respeito é moral. O Ceará, ao ir na contramão, assume o papel de quem aprendeu com a própria dor.

O Desafio Técnico: Execução e Continuidade

Não se constrói uma potência esportiva com projetos sazonais. O futebol feminino brasileiro está saturado de “equipes de verão”, que brilham sob o sol do masculino e desaparecem na primeira tempestade financeira.

Ao blindar o orçamento das Meninas do Vozão, o Ceará começa a construir uma independência. Mas o desafio agora é a execução:

Gestão Técnica: O recurso precisa focar em infraestrutura de ponta.

Profissionalização: Comissão técnica qualificada e scout apurado são essenciais.

Calendário: Sustentar com dignidade as disputas da Série A3, Copa do Brasil e Estadual.

Conclusão: A Dignidade não está em Leilão

A lição que fica para o futebol cearense e para o Nordeste como um todo é que a dignidade de uma modalidade não pode ser leiloada por má gestão. O Ceará parece ter entendido que o futebol feminino é um ativo e uma responsabilidade. Que o exemplo de 2026 não seja uma exceção, mas a regra de que, em Porangabuçu, o aprendizado finalmente entrou em campo.

O que você achou dessa mudança de postura do Ceará? Acredita que esse orçamento será suficiente para retomar o DNA vencedor das Meninas do Vozão? Deixe seu comentário abaixo.

Suleima Sena é colunista e analista de futebol, com olhar focado na gestão e no desenvolvimento das modalidades femininas no Brasil.

Foto: Michael Douglas / Ceará SC

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