Por Suleima Sena
Quando olhamos para estádios lotados no futebol feminino, há uma tendência perigosa de romantizar o resultado e ignorar o processo. Existe uma crença mística de que o público “aparece” por geração espontânea.
Spoiler: os dados mostram que não.
Uma pesquisa recente da Nexus, encomendada pela CBF (nov/2025), revelou uma realidade brutal: 59% dos brasileiros nunca pisaram em um estádio de futebol. Quando fazemos o recorte de gênero, o número é ainda mais latente: 72% das mulheres nunca foram ao estádio. Esses dados provam que cultura não é um acontecimento; é um projeto. Antes do estádio encher, o produto precisa ser planejado.
A falácia da “demanda espontânea”
Muitos gestores cometem o erro de cobrar público antes de oferecer estrutura. Mas no business do esporte, a lógica é inversa. De acordo com o Maior Raio-X do Torcedor (Quaest/2024), o interesse pelo futebol feminino cresceu (o percentual de quem não assiste caiu de 62% para 59% em um ano), mas o consumo ainda é majoritariamente mediado por telas.
Para converter o “espectador de sofá” em “torcedor de arquibancada”, a equação precisa ser:
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Investimento e Profissionalização: Sem jogo de qualidade, não há retenção.
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Marketing Direcionado: O dado da Nexus mostra que 63% dos jovens (16-24 anos) nunca foram ao estádio. Eles precisam de um convite que fale a língua deles.
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Experiência e Segurança: 1 em cada 3 mulheres cita a insegurança como barreira principal.
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Cultura de Consumo: O hábito nasce da repetição e da facilidade de acesso.
O campo de batalha pela atenção
O estádio não compete apenas com outro jogo; ele compete com o streaming (preferido por 27% dos torcedores mensais) e a TV aberta (líder com 61%).
O futebol feminino não pode ser vendido apenas como “o jogo”. Ele precisa ser uma plataforma de experiência. Quando o torcedor sai de casa, ele busca o que a tela não dá: pertencimento e vivência social.
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Entretenimento pré-jogo e ativação de marca.
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Ambiente seguro, inclusivo e familiar.
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Conexão real com o território.
Cultura se cria quando a experiência é memorável. O torcedor não nasce pronto; ele é formado.
O Caso Barueri: Cultura não se decreta
A discussão sobre o público na Arena Barueri ilustra o abismo de visão na gestão brasileira. Alegar que “o torcedor tem que acompanhar o time onde ele estiver” ignora que pertencimento exige conveniência. Se 72% das mulheres nunca foram ao estádio, como esperar que elas vençam barreiras geográficas e de transporte sem um plano de incentivo? Se você quer que uma praça consuma o produto, você precisa territorializar a marca: comunicar com antecedência e transformar o jogo em um evento comunitário.
O futebol feminino não é caridade. É mercado.
O novo público surge quando se sente convidado. O futebol feminino tem a vantagem estratégica de nascer sob uma nova ética: mais inclusiva e menos violenta. É o ativo perfeito para marcas que buscam propósito.
Cultura é estratégia de longo prazo:
Se queremos estádios cheios em 2027, o investimento estrutural precisa ser em 2026.Se queremos fidelização, precisamos de governança e visão de produto. Cultura se cria. Mas só quando alguém decide, de fato, colocá-la no orçamento.
Foto: Staff Image -CBF



