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Pesquisa do FC Barcelona indica maior gravidade de lesões durante a menstruação no futebol feminino

Pesquisa do Barcelona indica maior gravidade de lesões durante a menstruação no futebol feminino

Estudo conduzido pelo departamento médico do FC Barcelona ao longo de quatro temporadas indica que, embora a incidência de lesões seja semelhante, afastamentos são até três vezes maiores no período menstrual.

Uma pesquisa conduzida pelo departamento médico do FC Barcelona concluiu que lesões ocorridas durante a menstruação tendem a ser mais graves no futebol feminino. O estudo acompanhou jogadoras da equipe principal ao longo de quatro temporadas, entre 2019/20 e 2022/23, e amplia o debate científico sobre a influência do ciclo menstrual na saúde e no rendimento de atletas de alto nível.

METODOLOGIA E ESCOPO DA PESQUISA

O levantamento monitorou 33 atletas profissionais durante quatro anos consecutivos no mesmo centro de treinamento e sob os mesmos protocolos médicos. Ao todo, foram analisados mais de 850 ciclos menstruais e registradas 80 lesões musculoesqueléticas de membros inferiores ocorridas em treinos e partidas.

A pesquisa adotou critérios padronizados de definição de lesão, considerando apenas casos que resultaram em afastamento das atividades e utilizou sistemas de classificação reconhecidos no futebol europeu. A exposição foi quantificada com base em horas de treino e jogo, com apoio de monitoramento por GPS.

Diferentemente de estudos anteriores, que dividem o ciclo menstrual em múltiplas fases hormonais (folicular, ovulatória e lútea), o trabalho do clube catalão comparou apenas dois estados verificáveis: dias com sangramento e dias sem sangramento. A proposta foi reduzir especulações sobre variações hormonais não confirmadas por exames laboratoriais.

PRINCIPAIS RESULTADOS

Os dados indicaram que a incidência de lesões foi semelhante dentro e fora do período menstrual. Durante a menstruação, foram registradas 5,36 lesões por 1.000 horas de exposição, contra 6,48 fora do período de sangramento, diferença sem relevância estatística.

O impacto mais significativo apareceu na gravidade das lesões. A chamada “carga de lesão”, que mede os dias de afastamento por 1.000 horas de prática, foi de 684 dias durante a menstruação, contra 206 dias fora desse período.

Em números absolutos, das 80 lesões contabilizadas, 11 ocorreram durante a menstruação. No entanto, essas responderam por 1.379 dias de afastamento, com mediana de 53 dias por lesão. Fora do período menstrual, a mediana foi de 17 dias.

Entre os casos registrados, houve quatro lesões de ligamento cruzado anterior (LCA), duas delas ocorridas durante a fase de sangramento. Por envolverem longos períodos de recuperação, esses episódios podem ter influenciado o aumento da carga total de afastamentos.

Os responsáveis pelo estudo ressaltam que não é possível estabelecer relação causal direta entre menstruação e maior gravidade das lesões, mas os dados apontam para a necessidade de monitoramento individualizado.

FATORES FISIOLÓGICOS EM DEBATE

A literatura científica recente investiga como variações hormonais ao longo do ciclo menstrual podem influenciar aspectos como força muscular, controle neuromuscular e estabilidade ligamentar. Alterações nos níveis de estrogênio e progesterona estão associadas, em alguns estudos, à maior frouxidão ligamentar e mudanças no tempo de reação muscular.

Pesquisas conduzidas em diferentes modalidades esportivas já observaram tendência de maior risco ou gravidade de lesões em fases de instabilidade hormonal. No entanto, especialistas destacam que as evidências ainda são heterogêneas e que muitos estudos carecem de amostras maiores e acompanhamento hormonal individualizado.

Nesse contexto, entidades como a FIFA também têm investido em pesquisas sobre saúde da mulher no futebol, incluindo investigações sobre possíveis relações entre ciclo menstrual e lesões de LCA.

RELEVÂNCIA PARA O FUTEBOL DE ALTO RENDIMENTO

Para o futebol profissional, os resultados reforçam a importância de integrar o ciclo menstrual às estratégias de prevenção de lesões e gestão de carga física. A pesquisa sugere que o monitoramento não deve se limitar ao calendário, mas considerar sintomas, regularidade do ciclo e, quando possível, níveis hormonais.

Ciclo menstrual no Futebol Feminino
Ciclo menstrual das atletas podem influenciar no desempenho físico / Foto: Tácio Santos

O Barça Innovation Hub, núcleo de inovação do clube, tem investigado métodos menos invasivos de acompanhamento hormonal, como a medição de progesterona por meio da saliva, alternativa compatível com a rotina de treinos e com a privacidade das atletas.

Especialistas defendem que a menstruação não deve ser encarada como fragilidade, mas como variável fisiológica relevante na ciência do esporte. A individualização de treinos, ajustes na carga de trabalho, atenção à recuperação e diálogo aberto com as jogadoras são apontados como caminhos para reduzir riscos.

COMO ESSA PESQUISA PODE CHEGAR NO FUTEBOL FEMININO BRASILEIRO?

Os achados do clube espanhol podem servir de referência para o avanço da medicina esportiva no Brasil, especialmente em um momento de crescimento estrutural do futebol feminino no país. A incorporação do acompanhamento menstrual como variável de desempenho pode ser implementada gradualmente nos clubes brasileiros, começando pela criação de protocolos simples de registro de ciclo, sintomas e percepção de esforço. Mesmo sem exames hormonais laboratoriais, o monitoramento contínuo já permite identificar padrões individuais.

Para departamentos médicos, a principal implicação está na integração entre áreas de preparação física, fisioterapia, nutrição e psicologia que devem considerar o ciclo menstrual como parte do planejamento semanal de carga e recuperação. Além disso, a coleta sistematizada de dados pode contribuir para pesquisas nacionais e fortalecer parcerias com universidades, ampliando a produção científica sobre o tema no contexto brasileiro.

Ciclo menstrual no Futebol Feminino
Em 2025, o West Ham lançou o primeiro “uniforme menstrual”, adaptado para jogadoras em períodos menstruais / Foto: Divulgação / Arsenal

No Brasil, essa discussão não é inédita. Em 2020, houve uma movimentação significativa na Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino em torno do monitoramento do ciclo menstrual. Clubes como Corinthians, Flamengo, Santos e Palmeiras passaram a registrar o período menstrual das atletas e, em alguns casos, adaptar cargas de treino conforme sintomas e fase do ciclo. À época, levantamento com equipes da elite indicou que parte dos clubes já monitorava o ciclo e realizava ajustes individualizados, enquanto outros acompanhavam apenas de forma informativa, sem alterar a periodização.

No Corinthians, por exemplo, o acompanhamento inclui avaliação pré-participação com rastreamento do histórico menstrual e orientação para acompanhamento ginecológico anual. O Flamengo adota formulários diários preenchidos pelas atletas, incluindo informações sobre menstruação, que influenciam decisões relacionadas a treino e hidratação. Já o Santos utiliza planilhas controladas pela preparação física para prever datas e possíveis reações, podendo manter ou reduzir cargas. O Palmeiras também implementou gráficos internos de monitoramento, prática iniciada na base e ampliada ao profissional.

Essas iniciativas demonstram que o futebol brasileiro já iniciou um processo de adaptação à realidade fisiológica das atletas. A pesquisa internacional reforça a importância de consolidar essas práticas com base científica mais robusta, padronização de dados e integração multidisciplinar. O desafio, agora, é transformar ações pontuais em política estrutural dentro dos clubes, garantindo que o acompanhamento do ciclo menstrual deixe de ser exceção e passe a integrar, de forma sistemática, os protocolos de prevenção de lesões e otimização de desempenho no futebol feminino nacional.

EDUCAÇÃO NAS CATEGORIAS DE BASE

O impacto pode ser ainda mais significativo nas categorias de base. Muitas atletas iniciam a carreira competitiva ao mesmo tempo em que vivenciam a menarca, o que exige orientação adequada.

Especialistas recomendam que clubes adotem programas educativos com as seguintes frentes:

  • Palestras periódicas com médicas, nutricionistas e fisioterapeutas sobre ciclo menstrual e saúde esportiva;

  • Espaços seguros para diálogo, reduzindo tabus e constrangimentos;

  • Orientação individual no momento da primeira menstruação, com explicação sobre sintomas, dor e variações de rendimento;

  • Treinamento de treinadores e comissões técnicas para reconhecer sinais de desconforto físico ou emocional relacionados ao ciclo.

A educação precoce pode evitar abandono esportivo, insegurança e subnotificação de sintomas, além de estimular autonomia das jovens atletas no cuidado com o próprio corpo.

CUIDADOS DOS DEPARTAMENTOS MÉDICOS

Para os departamentos médicos, a recomendação é estruturar protocolos que incluam o registro contínuo do ciclo menstrual e dos sintomas associados, permitindo identificar padrões individuais e possíveis períodos de maior vulnerabilidade. Também é fundamental realizar a avaliação individual da carga de treino em fases de maior desconforto, além de monitorar dores persistentes, ciclos irregulares ou ausência de menstruação, fatores que podem indicar desequilíbrios hormonais ou outras condições que exigem acompanhamento especializado.

As informações coletadas devem ser integradas ao planejamento preventivo de lesões e compartilhadas de forma estratégica com a comissão técnica, sempre garantindo confidencialidade e respeito à privacidade das atletas. O avanço na compreensão da relação entre menstruação e lesões não implica restrição automática das atividades, mas reforça a necessidade de personalizar o acompanhamento médico e físico, adaptando o treinamento às características fisiológicas de cada jogadora.

O estudo do clube espanhol é apontado como parte de um movimento mais amplo de profissionalização do futebol feminino, colocando o corpo feminino no centro das decisões médicas e de rendimento. Embora ainda não haja consenso definitivo na literatura científica, os dados reforçam que a compreensão do ciclo menstrual pode se tornar ferramenta estratégica na prevenção de lesões e na otimização da performance no futebol de elite.

Foto: Getty Images

Isadora Leocardio

Jornalista e repórter no DONAS FC. Acompanho e produzo conteúdos sobre futebol feminino com foco em análise, cobertura de jogos e histórias inspiradoras das atletas. Apaixonada pelo esporte, contribuo para o crescimento e a visibilidade do futebol feminino no Brasil e no mundo.

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