Os Estados Unidos caíram nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, derrotados por 4 a 1 pela Bélgica. Numa lógica tradicional, essa seria uma notícia só sobre futebol masculino: eliminação, análise tática, próximo ciclo. Mas há um detalhe nesse resultado que interessa diretamente a quem acompanha o futebol feminino e que eu considero um dos casos mais relevantes de governança esportiva da década.
A FIFA pagou US$ 16 milhões (R$ 82,56 milhões) à federação americana pela campanha até as oitavas. Em qualquer outro país do mundo, esse valor seria destinado integralmente à seleção masculina, que foi quem entrou em campo. Nos Estados Unidos, não. Por força de um acordo coletivo assinado em 2022, 80% desse valor, US$ 6,4 milhões (R$ 32,96 milhões). dividido vai para um fundo comum repartido igualmente entre as seleções masculina e feminina. Os outros 20% ficam com a federação.
Na prática: US$ 6,4 milhões para os homens. US$ 6,4 milhões para as mulheres que sequer disputarão sua Copa antes de 2027. O valor destinado às jogadoras ficará aplicado até a convocação do grupo, e só então será distribuído entre as atletas elegíveis.
Preciso ser direta sobre um ponto: esse modelo não nasceu de boa vontade institucional. Nasceu de um processo judicial.
Em 2019, as jogadoras da seleção feminina dos Estados Unidos a mesma geração que viria a erguer taças e ocupar as manchetes processaram a própria federação por discriminação salarial. Não foi uma reivindicação simbólica. Foi uma ação formal, documentada, que expôs com números a disparidade entre o que recebiam homens e mulheres pelo mesmo trabalho, sob a mesma bandeira.
Três anos de disputa depois, veio o acordo: remuneração equiparada e, ponto central para o que vemos agora em 2026, a divisão igualitária de toda premiação paga pela FIFA às duas seleções nacionais. Não é um benefício. É um mecanismo estrutural, escrito em contrato, que sobrevive a ciclos de resultado, técnico ou dirigente.
Isso é o que diferencia governança de discurso. Qualquer federação pode declarar compromisso com a equidade em uma nota de fim de ano. Poucas transformam esse compromisso em cláusula contratual que redistribui dinheiro de verdade, mesmo quando uma das partes é eliminada precocemente e a outra ainda nem entrou em campo.
Por que isso deveria interessar ao futebol brasileiro
Trago essa discussão para cá porque ela não é um caso isolado de curiosidade internacional é um modelo de referência para qualquer federação que leve a sério a profissionalização do futebol feminino, inclusive a nossa.
O Brasil vive um momento decisivo rumo à Copa do Mundo de 2027, sediada em casa. Isso significa holofote, recurso e, principalmente, oportunidade de desenho institucional. A pergunta que caberia à CBF e a qualquer federação nesse momento, não é apenas “quanto vamos investir na seleção feminina”, mas “que mecanismos permanentes estamos construindo para que esse investimento não dependa de boa vontade de gestão”.
O caso americano prova um argumento que sustento há anos, desde a fundação da Donas FC: a desigualdade no futebol feminino não é resolvida por campanhas de conscientização. É resolvida por estrutura, contratos, cláusulas, fundos, mecanismos de redistribuição que funcionam independentemente de quem está eliminado e quem está classificado.
É preciso pontuar algo com honestidade analítica: esse acordo não resolve o problema de fundo, que é a disparidade histórica da própria FIFA entre as premiações das Copas masculina e feminina. A entidade máxima do futebol mundial ainda paga valores drasticamente distintos entre os dois torneios. Redistribuir dentro de um país não corrige a origem da desigualdade, apenas mitiga seu impacto local.
Mas é exatamente por isso que o modelo americano merece ser estudado como estratégia, não como solução definitiva. Ele reconhece uma assimetria que não vai ser corrigida no curto prazo pela FIFA e cria, dentro do que é possível negociar localmente, um contrapeso. É gestão pragmática diante de uma injustiça estrutural maior e isso é, em si, uma lição de liderança.
Os Estados Unidos saíram da Copa de 2026 nas oitavas de final. Mas garantiram, por contrato, que a eliminação masculina não significasse ausência de recurso para o lado feminino. Esse é o tipo de vitória que não aparece na tabela de classificação, mas que constrói a sustentabilidade de uma modalidade a longo prazo.
Enquanto acompanhamos resultados em campo, seguimos de olho no que realmente muda o jogo fora dele: contratos, governança e a coragem de transformar processos judiciais em política permanente.
*Suleima Sena é jornalista esportiva há mais de 20 anos, fundadora da Donas FC e cursa Pós-Graduação em Liderança e Gestão de Futebol pela CBF Academy.*
Fot0 USWNT -Daniela Porcelli/ISI Photos/Getty Images
Jamie Squire/Getty Images)




