Ex-jogadora do Gotham rescindiu alegando “motivos pessoais”, mas gerou revolta entre torcedores ao assinar com o Al-Qadsiah e apagar registros de sua família nas redes sociais
A atacante Esther González, campeã mundial com a Espanha em 2023 e maior artilheira da história do Gotham FC, virou centro de uma forte polêmica nas redes sociais. Após deixar a equipe dos Estados Unidos no fim de julho alegando necessidade de dar uma pausa na carreira por “razões pessoais”, a jogadora foi anunciada no final de agosto como o novo reforço do Al-Qadsiah, da Arábia Saudita.
A mudança repentina, no entanto, veio acompanhada de um detalhe que chamou atenção dos torcedores: a espanhola apagou de seu perfil quase todas as fotos ao lado da esposa, Estefanía Cruz, — com quem é casada desde 2021 — e da bebê, filha do casal, mantendo apenas uma publicação antiga de 2021. Na Arábia Saudita, relatórios internacionais e leis locais criminalizam a homossexualidade.

Idolatria e marcas históricas nos EUA
A controvérsia ganha proporções ainda maiores devido a carreira que a atleta construiu no futebol norte-americano. Desde sua chegada ao Gotham FC em 2023, González estabeleceu-se como referência técnica e liderança no elenco, sendo peça central na conquista de dois títulos da liga.
Segundo dados da Opta, a jogadora, que já atuou por Real Madrid, Levante e Atlético de Madrid, encerrou sua passagem nos EUA com marcas expressivas: 32 gols e 5 assistências em 71 partidas disputadas. Seu auge recente ocorreu em junho de 2026, quando converteu um pênalti na final da Challenge Cup e tornou-se a primeira jogadora na história a balançar as redes em três decisões diferentes na NWSL, liga americana.
O desempenho da atleta, com 36 gols pela seleção espanhola, consolida seu nome entre as grandes atacantes da modalidade, o que torna sua saída repentina ainda mais marcante para a torcida em Nova York.

Revolta da torcida e o debate sobre sportswashing
A decisão da atleta gerou uma onda de críticas no ecossistema do futebol feminino, modalidade historicamente pautada pela diversidade e inclusão. O episódio reacendeu o debate sobre o sportswashing — prática na qual governos ou regimes autoritários utilizam o esporte de alto rendimento e grandes eventos para mascarar violações de direitos humanos e melhorar sua imagem pública perante a comunidade internacional.
A conduta da atleta gerou forte repercussão negativa. Esther possuía contrato com o Gotham FC até 2027, mas solicitou a rescisão amigável sob a justificativa de que retornaria à Espanha para resolver questões pessoais. A ida para o futebol saudita pouco tempo depois fez com que parte dos torcedores a acusasse de ter enganado o clube norte-americano.
Acusações de “dupla traição” e comparação com o futebol masculino
Nas redes sociais, torcedores classificaram o episódio como uma ‘dupla traição’: a discussão gerou em torno por um lado do desgaste ético e a quebra de confiança com o ex-clube; e do outro lado da decisão de silenciar a presença da esposa e da filha na internet para viabilizar o contrato em um país com um regime repressivo que marginaliza sua própria estrutura família.
O episódio gerou comparações imediatas com o futebol masculino, resgatando o caso do britânico Jordan Henderson. Ex-capitão do Liverpool, o meio-campista era uma das vozes mais ativas na defesa da comunidade LGBTQIA+ no esporte, usando com frequência o espaço em entrevistas para cobrar o fim do preconceito e ostentando a braçadeira de capitão com as cores do arco-íris na campanha Rainbow Laces, da Premier League.
No entanto, ao se transferir para o Al-Ettifaq, viu o próprio clube saudita editar as imagens de sua apresentação para ocultar o acessório para tons de cinza e encobrir o símbolo.

Prejuízo financeiro e reestruturação do ataque do Gotham FC
Outro ponto de atrito envolve o impacto financeiro sofrido pelo clube norte-americano. Como a rescisão ocorreu sem custos sob a justificativa de razões pessoais, o Gotham FC perdeu a oportunidade de lucrar com uma venda. A comparação com o mercado recente escancara o montante envolvido: em janeiro de 2025, o Orlando Pride arrecadou US$ 500 mil (cerca de R$ 2,5 milhões) do próprio Al-Qadsiah para negociar a atacante brasileira Adriana.
Além do impacto financeiro, o “The Guardian” e a imprensa internacional citam o cenário interno no Gotham FC após a contratação da australiana Sam Kerr. Para a publicação britânica, a chegada de uma estrela para o ataque indicava um redirecionamento tático do clube, tornando improvável um reajuste financeiro para González, de 33 anos; fator que teria sido decisivo para a atleta aceitar a proposta do time Saudita .
Investimento e novas companheiras
No Al-Qadsiah, Esther González terá vínculo com o clube até 2027 com opção de renovação por mais uma temporada e dividirá o ataque com nomes como a brasileira Adriana, a portuguesa Jéssica Silva e a francesa Kheira Hamraoui. O clube busca se consolidar como potência local após terminar na terceira posição da última liga.
Embora a Arábia Saudita venha injetando cifras milionárias para estruturar sua liga feminina — criada recentemente, assim como sua seleção nacional, fundada apenas em 2021 —, o movimento ocorre sob rígidas restrições sociais e forte controle estatal, colocando em cheque os limites entre o desenvolvimento do esporte e o apagamento de direitos fundamentais.
Foto: Reprodução/ Getty Images




