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Barbra Banda se firma como estrela global e muda a história do futebol feminino africano

O futebol feminino africano conquista espaço e projeta novas estrelas no cenário mundial.

Nascida em 20 de março de 2000, em Lusaka, capital da Zâmbia, Barbra Banda cresceu em um ambiente onde o futebol feminino ainda era marginalizado. Desde pequena, mostrava talento e uma determinação incomum. Aos 7 anos, inspirada pelo seu pai, começou a jogar futebol com meninos nos campos de terra da vizinhança e chamava atenção pela força e velocidade. A falta de estrutura e a escassez de clubes femininos nunca foram obstáculos para seu sonho de viver do esporte.

Durante a adolescência, chegou a praticar boxe amador, vencendo todas as lutas que disputou. Apesar do sucesso nos ringues, a bola falou mais alto. Banda decidiu concentrar-se no futebol e, aos 16 anos, começou a se destacar em ligas locais, até ser convocada para as categorias de base da seleção zambiana. Em 2016, com apenas 18 anos, estreou pela equipe principal, marcando o início de uma trajetória que a colocaria entre as maiores atacantes do planeta.

Da Espanha à China: o salto internacional de uma promessa africana

Em 2018, Banda deu seu primeiro passo fora do continente africano ao assinar com o EDF Logroño, da Espanha. A ida para a liga europeia representou uma conquista simbólica para o futebol feminino da Zâmbia, que via, pela primeira vez, uma de suas jogadoras competir em alto nível internacional. Em duas temporadas, disputou 28 partidas e marcou 16 gols. Sua potência ofensiva e frieza nas finalizações chamaram atenção de olheiros de vários países.

No início de 2020, a atacante embarcou para a China, contratada pelo Shanghai Shengli. Lá, sua carreira ganhou projeção global. Em apenas 13 partidas, marcou 18 gols e se consolidou como uma das principais jogadoras da liga. O futebol chinês, conhecido pela intensidade física e pela organização tática, ajudou Banda a desenvolver ainda mais sua técnica, posicionamento e leitura de jogo.

Glória olímpica e recordes históricos com a seleção zambiana

A relação de Barbra Banda com a seleção nacional é de pura história. Desde a estreia, soma mais de cinquenta gols e tornou-se a maior artilheira da história do país, superando inclusive os registros do futebol masculino. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, disputados em 2021, marcou dois hat-tricks consecutivos. contra Holanda e China, tornando-se a primeira mulher a alcançar esse feito em uma mesma edição olímpica.

Três anos depois, em Paris 2024, Banda voltou a fazer história ao marcar outro hat-trick, dessa vez diante da Austrália. As atuações reafirmaram seu status de estrela mundial e transformaram-na em símbolo do crescimento do futebol feminino africano.

Reconhecimento global e liderança fora de campo

Em 2024, o Orlando Pride, dos Estados Unidos, anunciou sua contratação por cerca de 740 mil dólares, tornando-a a segunda jogadora mais cara da época. O contrato de quatro anos consolidou seu nome entre as principais atletas da NWSL, uma das ligas mais competitivas e prestigiadas do futebol feminino mundial.

Com gols decisivos, carisma e liderança, Banda rapidamente conquistou o público e foi eleita a Jogadora Mais Valiosa (MVP) da temporada 2024, ajudando o time estadunidense a conquistar o título nacional. No mesmo ano, entrou para o FIFPRO Women’s World 11, sendo a primeira africana da história a integrar a seleção ideal da FIFA e da FIFPRO.

As conquistas não pararam aí. Banda foi eleita Jogadora Africana do Ano pela CAF, ficou entre as finalistas do Ballon d’Or e foi indicada ao FIFA The Best, na categoria de Melhor Jogadora do Mundo. Em 2025, venceu o prêmio BBC Women’s Footballer of the Year, consolidando-se como uma das principais figuras do futebol global.

Superação, representatividade e legado

Ao longo da carreira, Barbra enfrentou inúmeros episódios de discriminação relacionados a gênero, raça e desinformação, reflexos dos desafios que ainda cercam as atletas africanas no cenário internacional.

Em 2022, foi impedida de disputar a Copa Africana de Nações Feminina após testes de verificação de gênero impostos pela CAF, que alegou níveis elevados de testosterona. O procedimento foi amplamente condenado por organizações como a Human Rights Watch, que o classificaram como discriminatório. Apesar disso, a FIFA manteve Banda elegível para a Copa do Mundo de 2023 e os Jogos Olímpicos de 2024.

Em 2024, após ser eleita Jogadora do Ano pela BBC, tornou-se alvo de ataques racistas e transfóbicos nas redes sociais, inclusive por parte da escritora J.K. Rowling. Tanto a BBC quanto a Federação Zambiana repudiaram as ofensas e expressaram apoio à atleta.

No ano seguinte, durante uma partida da NWSL pelo Orlando Pride, um torcedor do Gotham FC proferiu insultos transfóbicos contra Banda. O homem foi banido da liga, que reforçou sua política de tolerância zero à discriminação.

Mesmo diante de suspeitas infundadas sobre sua identidade e gênero, retrato de estereótipos racistas que ainda persistem, Banda segue transformando a dor em força e usando sua voz para defender igualdade e respeito no esporte.

Projeto social e legado além das quatro linhas

Fora dos gramados, Barbra Banda dedica-se a inspirar novas gerações. Em 2023, fundou a Barbra Banda Foundation, iniciativa social voltada à promoção da igualdade de gênero e ao incentivo à prática esportiva entre meninas na Zâmbia.

A fundação oferece bolsas de estudo, uniformes e equipamentos esportivos, além de firmar parcerias com escolas públicas para incluir o futebol feminino nas atividades curriculares. Também realiza palestras sobre autoestima, saúde e direitos das mulheres em comunidades carentes.

Por meio do esporte, Banda busca abrir caminhos para que outras meninas africanas sonhem alto, e saibam que, assim como ela, podem conquistar o mundo.

Foto: Dustin Markland / Getty Images.

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