Exigência da CBF obriga clubes que haviam encerrado projetos no futebol feminino a retomarem a modalidade.
O acesso de Athletico Paranaense e Chapecoense à primeira divisão do Campeonato Brasileiro masculino traz uma consequência direta fora das quatro linhas com a a reativação obrigatória de suas equipes femininas. Desde 2019, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) exige que todos os clubes participantes da elite masculina mantenham um time feminino ativo, o que pressiona as duas instituições a reorganizarem departamentos que estavam descontinuados.
Além de Athletico-PR e Chapecoense, Coritiba e Clube do Remo também garantiram vaga na primeira divisão masculina. A diferença, no entanto, está no estágio de cada projeto no futebol feminino. Enquanto Coritiba e Remo seguem com estruturas em funcionamento, Furacão e Verdão do Oeste terão de reconstruir praticamente do zero.
ATHLETICO-PR: TRADIÇÃO INTERROMPIDA
O Athletico Paranaense viveu um dos períodos mais vitoriosos de sua história no futebol feminino, mas encerrou o projeto em 2024. As Gurias Furacão foram extintas após o rebaixamento da equipe masculina para a Série B, sob a justificativa de corte de gastos.
A decisão causou forte repercussão, especialmente pelos números recentes da equipe. Em 2024, o time feminino conquistou o pentacampeonato paranaense (2020 a 2024) e caiu apenas nas quartas de final da Série A2 do Brasileirão, ficando muito próximo do acesso à elite nacional. Em 2022, o Athletico foi vice-campeão da Série A2.
O encerramento do projeto foi comunicado às atletas após a disputa da Ladies Cup, pelo então diretor de futebol Rodrigo Possebon. O argumento financeiro gerou críticas internas e externas, já que o custo do futebol feminino representa uma parcela mínima do orçamento do clube, especialmente se comparado aos mais de R$ 80 milhões investidos em reforços para o time masculino em 2024.
Agora, com o retorno à Série A, o Furacão terá de reestruturar o departamento feminino para cumprir as diretrizes da CBF.
CHAPECOENSE: QUATRO ANOS SEM FUTEBOL FEMININO E INCERTEZAS
A situação da Chapecoense é ainda mais delicada. O clube não mantém equipe feminina desde 2021 e não disputa competições na modalidade há quatro anos. O último registro de atividade ocorreu no Campeonato Brasileiro Feminino A2, quando o time terminou em quarto lugar do Grupo F, com uma vitória, um empate e três derrotas.
Desde então, não houve qualquer continuidade. Não existe elenco, comissão técnica, categorias de base ou planejamento em andamento. Mesmo com o acesso confirmado à Série A masculina, a Chapecoense admite, até agora, que não possui um plano para reativar o futebol feminino.
Em posicionamento oficial, o clube alegou limitações estruturais e operacionais:
“Nesse momento não há nenhum plano de retomar a equipe feminina, porque tem muitas coisas precisando de atenção. E com um grupo de colaboradores pequeno faltaria braço para começar um novo projeto.”
Apesar da justificativa, o regulamento da CBF não deixa margem para indefinição. Para disputar a Série A masculina, a Chapecoense precisará apresentar uma equipe feminina ativa, o que torna inevitável a criação de um projeto a curto prazo. Historicamente reconhecida como formadora de atletas no futebol feminino, a Chape terá o desafio de reconstruir uma modalidade que já foi referência regional.
CORITIBA E REMO EM VANTAGEM
Diferente de Athletico-PR e Chapecoense, Coritiba e Clube do Remo já mantêm equipes femininas em atividade. O Coxa preserva há anos um trabalho consistente com as “Gurias do Coxa”. Em 2025, a equipe disputou a Série A3 do Brasileirão e foi eliminada nas oitavas de final pelo Itabirito (MG). No Campeonato Paranaense, fez uma campanha sólida, garantiu vaga na final contra o Toledo e foi campeão pela primeira vez.

O Clube do Remo, por sua vez, segue ativo apesar da temporada irregular. As Leoas foram rebaixadas da Série A2 para a A3 após terminarem na última colocação do Grupo B, com apenas um ponto somado. Ainda assim, o time chegou a semifinal do Campeonato Paraense Feminino e também foi o único representante da Região Norte na Copinha Feminina.

EXIGÊNCIA QUE EXPÕE PRIORIDADES
A reativação dos departamentos femininos tende a movimentar o mercado, gerar oportunidades para atletas e comissões técnicas e impactar diretamente o desenvolvimento regional do esporte. Mais do que uma formalidade, a retomada coloca em xeque o compromisso real dos clubes com a modalidade.
Enquanto Coritiba e Remo partem de projetos já existentes, Athletico-PR e Chapecoense terão pouco tempo para estruturar equipes competitivas e atender às normas da CBF. O cenário reforça que, no futebol brasileiro atual, o feminino não é mais acessório, é parte obrigatória da engrenagem esportiva.
Foto: Rafael Bressan/ACF




