Criado em dezembro de 2025, o “Por Elas – Centro de Performance Esportiva”, em Belford Roxo, começou 2026 colhendo os primeiros resultados dentro e fora de campo. Em apenas três meses, o projeto já colocou atletas em centro de treinamento de alto rendimento e venceu seu primeiro amistoso: 5 a 2 sobre o Daminhas da Bola, no último dia 16 de março, na JS Arena.
Voltado para meninas de 13 a 18 anos, o projeto oferece formação esportiva gratuita e atendimento multidisciplinar, com apoio da Prefeitura de Belford Roxo e parceria com a Secretaria de Saúde. Ao todo, até 90 atletas podem ser atendidas no Campo do Zé Macaco, com acesso a acompanhamento médico, psicológico, odontológico e nutricional, além de treinos três vezes por semana.
A estrutura inclui uma equipe formada por fisiologista (Laila), fisioterapeuta (Leo), preparadores físicos (Everton e Bruno) e preparadora de goleiras e sócia (Lorena), um modelo ainda pouco comum em projetos de base da região. No fim de março, a Coordenadora Thais Lira concedeu entrevista exclusiva para o Donas FC e compartilhou as motivações, os desafios e objetivos com a iniciativa.
A origem do projeto
A iniciativa nasceu da trajetória pessoal da coordenadora Thais Lira, marcada por frustrações no esporte e por um momento decisivo na vida familiar.
“Eu sou fruto de um passado vivenciado por muitas mulheres. Sempre gostei de futebol, adorava ver o Marcelinho Carioca jogando, um batedor de faltas sensacional. Mas tive minhas expectativas com o esporte frustradas porque sou mulher, e de acordo com a educação que recebi ‘mulher não joga bola’.”
A relação com o esporte se intensificou durante um período crítico vivido com o filho:
“A paixão pelo futebol me levou a almejar o jornalismo, mas acabei fazendo Direito. E foi em um momento delicado que vivi com meu filho que me aproximou ainda mais do esporte e principalmente da categoria feminina. Foram 41 dias na UTI com uma infecção generalizada, e uma única certeza: precisávamos vencer esse jogo. Aí, se forma uma corrente com pessoas que nunca vi, amigos, algumas jogadoras e a Lorena que juntos além de muita energia positiva e várias partidas de futebol que assistimos juntos pela TV (eu e meu filho), me mantiveram lúcida e certa que a vitória era questão de tempo. Ali naquele momento a semente foi plantada. Mas apenas mais tarde, em outro momento, novamente com o apoio e incentivo da Lorena as coisas tomam forma e a nossa vice prefeita entra em cena, as coisas saem do papel e viram realidade.”
Disciplina como método
Mais do que formação esportiva, o projeto se apoia em disciplina e acompanhamento educacional das atletas.
“Aí entra o papel da mãe, educadora, neta e filha de militar. A disciplina e a educação são os pilares para a materialização do dia a dia do projeto. Não só do respeito, como um princípio em si, mas do desenvolvimento. Respeitar os processos. A gente acompanha, por exemplo, o desempenho escolar. Elas precisam estudar, quero saber das notas, como está a frequência… Não é só o que acontece dentro de campo. Lidamos com o contexto fora dele também. A educação é a base de tudo.”
A cobrança é direta e, segundo a coordenadora, intencional:
“As mantenho conscientes da realidade, mas sempre com muito afeto, o que não significa que passo a mão na cabeça delas. Sempre alerto: Educação para chegar, permanecer e sair dos lugares é uma premissa do ser humano e que a dedicação é peça fundamental no jogo. Repito sempre: se você não render, você é desligada. Se você não render, não é relacionada. Se você não render, seu contrato está rescindido e você vai ficar em casa porque se você não aparecer, não der ibope e não mostrar resultado, o clube não te quer. Pode até parecer duro dizer isso para meninas tão novas, mas eu criei meus filhos assim e me orgulho de quem eles são hoje. Estamos com essas meninas três vezes por semana. Acreditamos que a convivência com a estrutura fará com que o projeto faça a diferença na vida delas lá na frente. Amanhã, elas não estarão na rua, em más companhias e fazendo coisas que até a família desconhece.”
Estrutura e acompanhamento
Além dos treinos, o projeto investe no monitoramento físico das atletas. Um aplicativo próprio é usado para acompanhar rotina, alimentação, sono e ciclo menstrual — fator que pode impactar o desempenho e o risco de lesões.
“Nossa fisiologista tem um trabalho voltado para essa situação. Temos um aplicativo com o nome das atletas que elas respondem se comeram bem e o que, se dormiram bem, se a menstruação desceu e como estão se sentindo. E como estão em ambiente feminino, elas se sentem à vontade para conversar e comunicar que estão menstruadas, por exemplo. Mas a gente percebe que elas não rendem no período menstrual. Ter esse aplicativo amplia a nossa visão e o trabalho desenvolvido com elas.”
Apesar da atenção ao desenvolvimento dentro do projeto, há limites claros na atuação fora dele:
“Com situações extracampo a gente simplesmente não lida. Porque cada família vai ter sua forma de educar e a gente não pode invadir esse espaço. Mas dentro do projeto, a gente pratica a escuta, conversa e orienta dentro do possível.”
Primeiros resultados
Mesmo no início, o “Por Elas” já começa a abrir portas. Atualmente, quatro atletas são acompanhadas no CETRAF, centro de treinamento na Barra da Tijuca.
“Nós temos quatro atletas sendo acompanhadas no CETRAF (Centro de Treinamento para Atletas de Futebol na Barra da Tijuca): uma goleira, uma meio de campo, duas volantes e uma ponta.
Foram cinco selecionadas, mas uma não encaixa no horário escolar. Ainda estamos conversando para entender a situação dela. Elas treinam uma vez por semana, gratuitamente, e essas além do lanche que fornecemos, recebem o complemento oferecido por eles.”
Dentro de campo, a vitória sobre o Daminhas da Bola foi comemorada, mas sem acomodação.
“Elas ficaram em êxtase. Não só elas, nós da comissão também. A festa foi liberada no final do jogo. O Daminhas é referência. A Thaissan é precursora no projeto de base de futebol feminino. São 10 anos de estrada. São 10 anos que ela briga com o sistema que tenta reprimir a gente de todas as maneiras. Ela sabe exatamente a capacidade dela e o tamanho dela no mercado do futebol feminino. Mas foi o que falei aqui, eu as mantenho dentro da realidade e com os pés no chão. Não é porque ganhou que tudo é festa. Então no treino seguinte o esporro veio. Elas chegaram achando que seriam parabenizadas mais uma vez. Só que, se levamos dois gols, não foi perfeito. Os dois gols são reflexos de dois erros. Dois erros na defesa. Dois erros na falta de comunicação. Dois erros de entrosamento. Dois erros que se eu não corrigir hoje eu tenho problemas amanhã.”
Desafios financeiros
Apesar da estrutura, o principal obstáculo ainda é ampliar o alcance do projeto.
“O principal desafio é o financeiro. Nós temos estrutura para receber até 90 meninas. Estamos preparadas para isso. Mas não há condições financeiras para receber esse número e é necessário limitar. A gente dá espaço para quem quer viver do esporte. Para acreditar e sonhar que é possível ser alguém usando o esporte como trampolim.”
Ambiente seguro e estimulador de sonhos
Segundo a coordenadora, 99% das atletas querem ser jogadoras de futebol. E do Flamengo. E destaca a importância de criarem um ambiente seguro e que transmita proteção para impulsionar esses sonhos:
“Que a gente saiba, nenhuma das nossas meninas têm histórico que envolve assédio. Além disso, nós temos um enorme cuidado para trazer para o projeto a figura feminina. Assim, as meninas, que são crianças, podem se identificar com essas profissionais. É cuidado. É fazer com que elas entendam que estão em um local protegidas, que não precisam temer nada e possam se sentir à vontade. Sempre e em qualquer circunstância, elas estão acompanhadas da figura feminina.”
Impacto além do futebol
Para a coordenadora, o objetivo vai além da formação de atletas profissionais.
“O meu maior sonho é ter a consciência que, de certa forma, eu fui um trampolim para que elas atingissem um sonho maior, não só dentro do futebol, mas em qualquer ambiente que elas queiram seguir.
E repito: Educação é a base de tudo. Eu vou ficar muito feliz se, daqui alguns anos, eu encontrar uma das minhas meninas, que não seguiu com o futebol, mas se tornou uma médica, uma juíza, uma professora, uma enfermeira, que ela é qualquer coisa e que ela se permitiu ser. Vou ficar feliz por elas acreditarem nelas.
Eu estou aqui hoje, falando com você, porque alguém um dia acreditou em mim e esse alguém foi a Lorena. E é o que a gente tenta passar para as meninas, “só vai que a gente está aqui com vocês.”
Hoje, o projeto já se consolida como um espaço de formação esportiva e também de construção de perspectivas para meninas da Baixada Fluminense, dentro e fora de campo.
Foto: Daniel Santos




