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Quem Decide o Futuro do Futebol Feminino?

Bem-vindos à onda, mas não esqueçam quem construiu o mar.

Tem uma cena que se repete sempre que um esporte feminino começa a brilhar de verdade: de repente, todo mundo sempre esteve lá. Sempre acreditou. Sempre apoiou. Os patrocinadores reaparecem. As marcas redesenham suas campanhas. Os gestores passam a usar termos como ‘legado’ e ‘transformação’. E aí você olha para o lado e pensa: espera, onde vocês estavam quando a gente estava na luta sozinha?

Com o futebol feminino brasileiro, não é diferente. A Copa do Mundo de 2027, que o Brasil sediará, trouxe uma luz que o esporte nunca teve com tanta intensidade. E com a luz, vieram os surfistas. Muitos deles.

E sabe o que eu digo? Sejam bem-vindos.

A onda precisa de mais surfistas

Não existe movimento cultural que cresça sem novos entrantes. Quando mais gente investe, fala, consome e divulga o futebol feminino, a roda gira mais rápido. A visibilidade aumenta. O mercado se expande. As atletas ganham melhores contratos. As treinadoras têm mais oportunidades. As meninas que assistem ao jogo no sofá começam a sonhar com algo que parece possível.

Então sim, quem está chegando agora tem espaço. O movimento precisa de vocês. Precisa de empresas, de comunicadores, de gestores, de investidores. A pluralidade de vozes e recursos não é ameaça. É combustível.

Mas e aqui está o ponto que não podemos deixar passar,  existe uma diferença fundamental entre quem chega para construir e quem chega para colher.

Não esqueçamos as males de quem veio antes

O futebol feminino brasileiro foi proibido por lei durante 40 anos. Quarenta anos. De 1941 a 1979, o Conselho Nacional de Desportos vedava às mulheres a prática do futebol, considerando-o com toda a violência que essa palavra carrega, incompatível com as condições femininas’. Quando a proibição foi suspensa, não havia estrutura. Não havia apoio. Não havia transmissão, salário, nem federações dispostas a olhar sério para o esporte.

Foram mulheres, jogadoras, jornalistas, técnicas, dirigentes, pesquisadoras, mães de atletas, gestores aliados que carregaram esse projeto nas costas por décadas. Sem aplausos. Sem patrocínio. Sem holofote. Muitas vezes, sem salário.

Se hoje existe onda, é porque elas construíram o oceano.

Ignorar essa história não é apenas ingratidão. É uma escolha política. Porque quando apagamos quem esteve na origem, apagamos também o modelo que devemos seguir e os erros que não podemos repetir. Reconhecer as pioneiras não é nostalgia. É bússola.

O perigo de quem chega só pela onda

Há um padrão que se repete em esportes, causas sociais e movimentos culturais: quando algo vira moda, chegam os oportunistas de boa-fé. Pessoas que genuinamente se empolgam com o momento, mas cuja atuação é puramente reativa ao ciclo de visibilidade. Enquanto a Copa estiver na mídia, estão. Quando o noticiário mudar, somem.

No futebol feminino, isso tem nome e endereço. São as marcas que lançam camisetas femininas às vésperas da Copa e desaparecem no segundo semestre de 2027. São os gestores que descobrem ‘paixão pelo esporte feminino’ exatamente quando ele vira pauta de conselho. São os eventos que nascem sob o guarda-chuva da Copa e morrem com ela.

E o problema não é a empolgação, o problema é quando essa empolgação ocupa espaço, consome recursos e captura narrativas sem oferecer continuidade. Quando o palco é tomado por quem não vai ficar para o segundo ato.

O futebol feminino brasileiro foi proibido por lei durante 40 anos. Quarenta anos. De 1941 a 1979, o Conselho Nacional de Desportos vedava às mulheres a prática do futebol, considerando-o — com toda a violência que essa palavra carrega — ‘incompatível com as condições femininas’. Quando a proibição foi suspensa, não havia estrutura. Não havia apoio. Não havia transmissão, salário, nem federações dispostas a olhar sério para o esporte.

Foram mulheres: jogadoras, jornalistas, técnicas, dirigentes, pesquisadoras, mães de atletas , que carregaram esse projeto nas costas por décadas. Sem aplausos. Sem patrocínio. Sem holofote. Muitas vezes, sem salário.

Se hoje existe onda, é porque elas construíram o oceano.

Ignorar essa história não é apenas ingratidão. É uma escolha política. Porque quando apagamos quem esteve na origem, apagamos também o modelo que devemos seguir — e os erros que não podemos repetir. Reconhecer as pioneiras não é nostalgia. É bússola.

O perigo de quem chega só pela onda

Há um padrão que se repete em esportes, causas sociais e movimentos culturais: quando algo vira moda, chegam os oportunistas de boa-fé. Pessoas que genuinamente se empolgam com o momento, mas cuja atuação é puramente reativa ao ciclo de visibilidade. Enquanto a Copa estiver na mídia, estão. Quando o noticiário mudar, somem.

No futebol feminino, isso tem nome e endereço. São as marcas que lançam camisetas femininas às vésperas da Copa e desaparecem no segundo semestre de 2027. São os gestores que descobrem ‘paixão pelo esporte feminino’ exatamente quando ele vira pauta de conselho. São os eventos que nascem sob o guarda-chuva da Copa e morrem com ela.

E o problema não é a empolgação, o problema é quando essa empolgação ocupa espaço, consome recursos e captura narrativas sem oferecer continuidade. Quando o palco é tomado por quem não vai ficar para o segundo ato.

O pós-Copa é onde o jogo de verdade começa

Vou dizer algo que pode soar impopular no clima de euforia que já começa a se instalar: a Copa do Mundo de 2027 não é o destino. É um trampolim. E a pergunta mais importante não é quem estará nas arquibancadas em julho de 2027, é quem estará trabalhando pelo futebol feminino em dezembro de 2027.

Os grandes torneios criam janelas. Janelas de investimento, de atenção pública, de formação de audiência. Mas janelas fecham. E quando fecham, o que fica são as estruturas que foram construídas enquanto elas estavam abertas.

Legado é o que sobra quando as câmeras vão embora

Cultura não se constrói em dois anos. Se constrói em decisões cotidianas, em estruturas que sobrevivem às administrações, em narrativas que atravessam gerações. O legado de uma Copa qualquer Copa, não é medido pela cerimônia de abertura. É medido pelo que acontece com os clubes, com as ligas, com as meninas que praticam o esporte cinco anos depois.

E para que esse legado seja real, três coisas precisam acontecer:

1. As pioneiras precisam ser reconhecidas e ouvidas, não como peças de museu, mas como vozes ativas na construção do que vem depois.

2. Os novos entrantes precisam se comprometer com continuidade, não apenas com visibilidade. Participar ativamente do pós-Copa é a prova real de intenção.

3. As estruturas de decisão precisam incluir mulheres especialmente as que conhecem o esporte por dentro, não apenas as que chegaram com o brilho do momento.

Então quem decide?

O futuro do futebol feminino será decidido por quem tiver coragem de ficar. Não apenas de aparecer.

Será decidido por quem respeitar a história sem se prender a ela. Por quem abrir espaço sem apagar quem pavimentou o caminho. Por quem entender que a Copa é uma passagem e o legado é a estrada.

A onda chegou. Quem vai surfar ela até a areia e continuar construindo quando o mar acalmar?

 

 

Foto-Getty Image

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