Por Suleima Sena
Falta exatamente um ano. E quem ainda está esperando o momento ideal para entrar no mercado do futebol feminino já está atrasado.
A Copa do Mundo Feminina da FIFA Brasil 2027 não é apenas o maior evento esportivo feminino da história do país. É, para o ecossistema de negócios, a maior oportunidade de posicionamento de marca, crescimento de audiência e profissionalização da gestão que o futebol feminino brasileiro já produziu. O torneio começará em 24 de junho de 2027 e terá seu encerramento em 25 de julho, com abertura e final no icônico Maracanã. Os jogos serão distribuídos estrategicamente por oito capitais: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Recife, Porto Alegre e Salvador.

O mundo inteiro vai olhar para o Brasil. A pergunta que as lideranças corporativas e esportivas precisam fazer agora é: o Brasil está sabendo o que fazer com esse olhar?
Os números que justificam a urgência
A FIFA anunciou um aporte recorde de US$ 800 milhões para a competição- quase o dobro dos US$ 499 milhões investidos na edição de 2023, na Austrália e Nova Zelândia. O governo federal, por sua vez, estima uma contrapartida de ao menos R$ 1,5 bilhão em investimentos distribuídos entre infraestrutura, segurança, marketing e fomento à modalidade, incluindo a criação de 500 núcleos de futebol feminino e 12 centros de treinamento de alto rendimento.
Mas os números mais reveladores não vêm dos cofres públicos, vêm diretamente da audiência consolidada.
Indicadores de Atração de Público
22,6 Milhões de Espectadores: Alcance da estreia da Seleção Feminina na FIFA Series (Grupo Globo), superando o clássico masculino Derby paulista em alcance multiplataforma.
71% de Afinidade: Percentual de brasileiras conectadas que se declaram fãs de Copa do Mundo, um salto de 22% desde 2014, segundo dados do IBOPE Repucom.
R$ 1,23 Milhão em Bilheteria: Renda histórica registrada na Neo Química Arena na final do Brasileirão Feminino, engajando um público de 41.130 torcedores.
O futebol feminino não é mais uma promessa romântica. É um produto comercial robusto, com audiência real, crescente e altamente engajada.
O que o mercado já percebeu e as lacunas ocultas
O Mapa do Patrocínio do IBOPE Repucom revelou que os clubes da Série A estamparam 164 marcas diferentes em seus uniformes, uma alta de 24% ano contra ano. Pela primeira vez, o levantamento também mapeou os patrocinadores do Brasileirão Feminino Série A1, registrando 92 marcas em 16 equipes com 50% dessas marcas sendo totalmente exclusivas do feminino, sem qualquer vínculo com os contratos dos times masculinos.
É um dado estratégico revelador: metade dos patrocinadores do futebol feminino enxerga a modalidade como um território próprio de construção de marca, e não como mero apêndice do masculino. Os setores que lideram esse movimento são aqueles que encontraram no feminino o que o masculino tradicionalmente não oferece: higiene pessoal, beleza, alimentação, varejo e consumo de massa. São categorias com altíssima afinidade com o público feminino, que representa mais da metade da população consumidora do país.
Contudo, há uma contradição estrutural de mercado que precisa ser avaliada:
85% das receitas dos clubes femininos brasileiros ainda dependem exclusivamente de patrocínios.
Menos de 5% contam com programas de sócio-torcedor dedicados à modalidade feminina.
O modelo de negócio atual é frágil, concentrado e vulnerável. A Copa de 2027 precisa ser o divisor de águas para corrigir essa distorção, sob o risco de o evento passar sem deixar um legado de sustentabilidade técnica e financeira.
A lição de ROI que vem de fora
Para os tomadores de decisão que exigem benchmarks consolidados, os Estados Unidos apontam o caminho. A NWSL (National Women’s Soccer League) foi avaliada em mais de US$ 300 milhões, mantendo médias de público superiores a 11 mil torcedores por jogo e vendas de licenciados próximas a US$ 20 milhões. A Amazon, atuando como patrocinadora da liga, alcançou uma taxa de consideração de 88% entre as fãs — número que supera indicadores de ligas masculinas tradicionais.
O modelo americano comprova que o futebol feminino, quando tratado com visão estratégica e investimento de longo prazo, gera retorno financeiro mensurável, e não apenas ganho reputacional.
Dados da Women’s Sport Trust confirmam que cada US$ 1 investido no esporte feminino gera, em média, US$ 7,29 em valor de cliente (LTV). Não por acaso, 86% das marcas globais afirmam que o ROI atingiu ou superou as expectativas, e 80% planejam investir ativamente em esportes femininos até 2027.
As quatro grandes frentes de oportunidade para a gestão
O ciclo até a Copa do Mundo de 2027 abre frentes concretas de monetização e posicionamento no ecossistema nacional:
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Patrocínio e ativação de marca: As marcas que ingressarem agora constroem familiaridade e autoridade antes do pico de atenção global. Em 2027, o espaço publicitário será disputado centímetro a centímetro. Quem chegar tarde pagará significativamente mais por menos exposição.
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Direitos de mídia e conteúdo: A ampliação das transmissões em TV aberta, o crescimento das plataformas digitais e o interesse do público internacional criam um mercado de conteúdo que vai muito além dos 64 jogos. O ciclo Copa gera pauta e engajamento meses antes e depois do evento.
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Turismo e economia regional: Com jogos em oito capitais, incluindo as potências do Nordeste como Fortaleza, Recife e Salvador, o impacto econômico do turismo será descentralizado. O Nordeste tem uma oportunidade única de se consolidar na rota internacional do esporte e da cultura.
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Profissionalização e liderança: A Copa exige estrutura de nível internacional. A demanda por profissionais de gestão esportiva focados na modalidade crescerá de forma acelerada. Clubes, federações e marcas precisarão de lideranças que entendam o produto e a dinâmica de consumo desse público, e não apenas as regras do jogo.
O erro do legado que não podemos repetir
Em 2014, o Brasil sediou a Copa do Mundo Masculina. Os estádios foram construídos, os contratos assinados e os holofotes acesos. Contudo, o legado que ficou para a maioria das cidades-sede se traduziu em arenas subutilizadas e endividamentos de longo prazo.
O futebol feminino não pode, e não vai, seguir esse roteiro. O legado de 2027 precisa ser medido pelo aumento de meninas praticando o esporte, pela sustentabilidade financeira dos clubes, pelo número de gestoras ocupando cadeiras de decisão e por contratos duradouros entre marcas e torcedores. Precisa se traduzir na profissionalização definitiva de um setor que, por décadas, sobreviveu apenas à base da paixão e da resistência.
A Donas FC acompanha o futebol feminino brasileiro muito antes de ser tendência, de virar pauta de marketing ou de a FIFA aportar US$ 800 milhões. O que aprendemos é simples: o futebol feminino não precisa de atenção momentânea; precisa de estrutura permanente.
A Copa é a janela. O que entra por ela depende de estarmos prontos do lado de dentro para receber.
Faltam 365 dias. O relógio corre. E o jogo, dentro e fora de campo, já começou.
Foto Johannes Eisele
Grafico FIFA




