Primeira mulher a comandar a Federação Norueguesa de Futebol, dirigente ganhou destaque por críticas à Fifa e posicionamentos sobre temas sociais e políticos
Adversária do Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, a Noruega também chama atenção fora das quatro linhas. O futebol do país é comandado por Lise Klaveness, primeira mulher a presidir a Federação Norueguesa de Futebol em seus 120 anos de história.
No cargo desde 2022, a dirigente ganhou projeção internacional pelos posicionamentos firmes em defesa dos direitos humanos, da igualdade e da boa governança no futebol. Antes de chegar à presidência, porém, construiu uma trajetória de destaque como atleta e, posteriormente, como gestora.
Natural de Bergen, no oeste da Noruega, Klaveness teve os primeiros contatos com o futebol ainda na infância. Incentivada pelo pai, treinava diariamente em clubes da cidade, onde deu os primeiros passos rumo ao profissional.
Como meia, atuou por equipes norueguesas e teve uma breve passagem pelo futebol sueco. Também defendeu a seleção da Noruega em 73 partidas, marcou nove gols e disputou as Copas do Mundo de 2003 e 2007. Em 2005, fez parte da equipe que terminou com o vice-campeonato da Eurocopa Feminina.
Depois de encerrar a carreira nos gramados, formou-se em Direito e trabalhou como advogada, juíza em Oslo e assessora jurídica do Banco Central da Noruega. Mesmo distante dos campos, seguiu ligada ao esporte ao se tornar a primeira mulher comentarista de futebol da televisão norueguesa, período em que enfrentou episódios de machismo e críticas à sua aparência.
Em entrevista ao Financial Times, em 2023, contou que transformou os ataques sofridos em motivação para seguir em frente e ocupar espaços historicamente dominados por homens. A experiência na televisão abriu caminho para a gestão esportiva. Primeiro, tornou-se a primeira mulher a ocupar a direção técnica das seleções masculina e feminina da Noruega. Em seguida, foi eleita presidente da federação nacional, quebrando um tabu de mais de um século.
A atuação de Klaveness à frente da entidade rapidamente ultrapassou os limites do futebol. Às vésperas da Copa do Mundo de 2022, utilizou o Congresso da Fifa para cobrar maior compromisso da entidade com os direitos humanos.
Em seu discurso, criticou as condições enfrentadas pelos trabalhadores migrantes responsáveis pela construção da infraestrutura do Mundial e questionou a falta de garantias à comunidade LGBTQIA+ no Catar.
As declarações ganharam ainda mais repercussão pelo fato de a dirigente ser casada com uma mulher, em um país onde, à época, relações entre pessoas do mesmo sexo eram criminalizadas. Na mesma ocasião, também criticou a escolha da Rússia como sede da Copa do Mundo de 2018, afirmando que decisões dessa dimensão deveriam respeitar princípios como igualdade, democracia e direitos humanos.
Mesmo após o encerramento do torneio, Klaveness manteve a cobrança sobre a Fifa. Em 2023, voltou ao Catar para acompanhar o andamento das medidas prometidas pela entidade em relação aos trabalhadores migrantes e às denúncias de violações de direitos humanos.
O posicionamento da dirigente também se estendeu a outros temas internacionais. Durante o conflito na Faixa de Gaza, a federação norueguesa foi uma das poucas do futebol europeu a se manifestar publicamente. Sem defender o boicote a partidas contra Israel, a entidade pediu o fim dos ataques contra civis e a apuração de possíveis violações do direito internacional.
Em março deste ano, Klaveness foi reeleita para um novo mandato. Sob sua gestão, o futebol norueguês atravessa um período de crescimento. Enquanto a seleção feminina alcançou as quartas de final da Eurocopa de 2025, a masculina voltou a disputar uma Copa do Mundo após 28 anos de ausência.
Foto: Miguel A. Lopes – EPA



