Donas FC

Acesso, estrutura e segurança: os caminhos para transformar o futebol feminino

Elas Jogam Summit

Durante o Elas Jogam Summit, especialistas discutiram a necessidade de ampliar oportunidades para meninas, profissionalizar clubes e criar ambientes seguros na modalidade

A formação de meninas no futebol vai muito além de oferecer uma bola e um espaço para treinar. Para que novas jogadoras permaneçam na modalidade e tenham condições de desenvolver suas carreiras, é preciso garantir acesso, estrutura, profissionalização e ambientes seguros. Esses foram alguns dos principais pontos discutidos no painel Um olhar para o Futuro: Formação de base e espaços seguros para meninas’, realizado neste domingo (23), durante o Elas Jogam Summit, no Museu do Futebol, em São Paulo.

Mediado por Suleima Sena, jornalista, gestora esportiva e fundadora do Donas FC, o painel reuniu Larissa Li, sócia-diretora de Pessoas e Cultura do Sfera F.C., Rafaela Esteves, executiva de futebol feminino do Mirassol F.C. e Júlia Vergueiro, fundadora e CEO da Nossa Arena e do Instituto Nossa Arena.

A conversa abordou os desafios para ampliar a presença de meninas no futebol desde a base, a necessidade de clubes estruturarem departamentos próprios para a modalidade e a importância de criar ambientes capazes de desenvolver atletas não apenas dentro de campo, mas também como pessoas.

Criar espaços para que meninas possam jogar

Para Júlia Vergueiro, a falta de espaços específicos para meninas foi um dos principais obstáculos encontrados no início de sua trajetória. Antes da Nossa Arena, ela participou da criação do Pelado Real, escola de futebol voltada para meninas e mulheres, em 2011.

Naquele momento, segundo ela, havia poucas iniciativas semelhantes e até mesmo as famílias tinham receio de inserir as filhas em ambientes tradicionalmente associados ao futebol masculino. “O primeiro desafio foi criar uma estrutura que fizesse as mulheres e as meninas entenderem: ‘calma, existe um espaço para a gente’. Estamos construindo algo do nosso jeito e que vocês vão se sentir em casa”, afirmou.

Júlia destacou que, durante muito tempo, esses projetos precisaram ocupar espaços nos quais as mulheres não eram necessariamente protagonistas. A criação da Nossa Arena, anos depois, surgiu também como uma forma de mostrar que era possível construir um ambiente pensado para elas.

“É isso que a gente vive e é isso que queremos que se multiplique. A gente passou pela barreira do é impossível e mostramos que era, mesmo num ambiente difícil. Depois construímos um ambiente onde agora não tem dúvida, sim, o nosso lugar de jogar, ele existe e vamos fazer com que ele seja cada vez maior”, afirmou.

Profissionalização precisa começar dentro dos clubes

A discussão sobre acesso também levou o painel para outro desafio: transformar o futebol feminino em um projeto estruturado dentro dos clubes. Rafaela Esteves falou sobre o processo de implantação do departamento feminino do Mirassol, que começou a modalidade diante de uma exigência da Conmebol, que obriga os clubes que participam de torneios continentais como a Libertadores ou a Sul-Americana a manterem equipes femininas e categorias de base.

Para a executiva, porém, o objetivo precisava ir além do cumprimento de uma regra. A prioridade foi fazer com que o futebol feminino passasse a fazer parte da cultura da instituição. “Mais do que uma obrigatoriedade de criar um departamento por conta da exigência da Conmebol, por conta da participação da Libertadores, é fazer com que a própria instituição entenda e crie essa cultura”, refletiu a profissional, que já teve passagens pela Ferroviária e Corinthians.

Rafaela contou que chegou ao Mirassol, no fim de janeiro deste ano, teve cerca de um mês e meio para estruturar o departamento e entregar a documentação necessária para o licenciamento do Campeonato Paulista. O projeto foi planejado desde o início da temporada, incluindo comissão técnica, orçamento, captação de patrocínio e estrutura. Um dos diferenciais apontados por ela foi a criação de um centro de treinamento exclusivo para o futebol feminino. A profissionalização também chegou às atletas, que foram contratadas pelo regime CLT. 

“O diferencial do Mirassol foi começar com uma profissionalização. De fazer algo próprio, de valorizar as atletas e a comissão nesse sentido de ser CLT. Acho que é um caminho que mostra um cuidado com a modalidade, a questão da estrutura”, analisou.

Para Rafaela, consolidar o projeto também significa olhar para aquilo que acontece fora das quatro linhas. Ela ressaltou que o desenvolvimento das atletas não pode ser medido apenas por resultados esportivos. “Eu acho que o que acontece dentro é muito reflexo do que faz fora”, afirmou.

Ambiente seguro também é parte da alta performance

A estrutura, porém, não é suficiente para garantir a permanência das meninas no esporte. Larissa Li chamou atenção para a importância da cultura das organizações e para a construção de ambientes nos quais atletas e profissionais tenham segurança para errar, discordar e propor novas ideias.

Para ela, a busca por resultados imediatos pode criar ambientes nos quais atletas e profissionais são rapidamente definidos por seus acertos ou erros. Esse modelo, na avaliação da executiva, dificulta a construção de uma performance sustentável. “Se a gente tem um ambiente que é extremamente autoritário, rígido e muito controlador, a gente tende a ter muito mais medo de errar. Essa cultura vira uma cultura muito menos inovadora, muito menos criativa”, explicou.

Suleima Sena, Júlia Vergueiro, Rafaela Esteves e Larissa Li

Larissa defendeu que um ambiente saudável não significa ausência de cobrança. A diferença está na maneira como a pressão e os erros são tratados. “Não tem alta performance sustentável se a gente não tem um ambiente saudável. O que faz as pessoas permanecerem, com certeza, é ter uma cultura que sustente esse ambiente e esse dia-a-dia saudável, que nada tem a ver com não ser exigente, tá?”, disse a profissional, reforçando que a pressão por resultados continuará existindo no alto rendimento, mas precisa estar acompanhada de suporte para atletas e profissionais.

Falta de espaços ainda afeta a base

Outro ponto destacado no painel foi a dificuldade de projetos sociais manterem acesso regular a campos e estruturas para atender meninas interessadas em jogar futebol. Júlia explicou que o Instituto Nossa Arena surgiu também a partir da percepção dessa necessidade. A iniciativa oferece capacitação e financiamento para projetos que trabalham com a inclusão de meninas no futebol.

Segundo ela, existem projetos espalhados pelo país que atuam há anos na formação de atletas, mas enfrentam dificuldades para manter seus espaços e acessar recursos. “Nós convidamos projetos sociais que estão querendo ou que já têm algum trabalho de inclusão de meninas no futebol e fazemos um processo tanto de capacitação quanto de financiamento”, explicou.

Júlia citou como exemplo um projeto que atende mais de 50 meninas, mas enfrenta problemas para utilizar regularmente um campo público. Para ela, garantir o acesso ao espaço é tão importante quanto oferecer recursos financeiros ou metodologia. “Mais do que uma organização que está dando força, que está fazendo isso acontecer, a gente precisa que esses espaços sejam assegurados”, ressaltou.

Mais mulheres em posições de liderança

A presença feminina em cargos de liderança também esteve entre os temas do debate. Rafaela contou que, ao estruturar o departamento do Mirassol, fez questão de buscar mulheres para integrar a comissão técnica e ocupar posições de responsabilidade. “Se eu estou onde eu estou, é porque a Ferroviária, 8 anos atrás, me deu a oportunidade. Então, por que eu não vou fazer isso com outras mulheres? Então, eu levo isso comigo”, afirmou.

Para ela, a representatividade pode criar novas possibilidades para meninas que estão começando no futebol e para profissionais que ainda não enxergam determinados cargos como espaços possíveis. Rafaela também destacou a importância de dar autonomia para essas profissionais dentro do clube. “Não só ter lideranças comigo, mas também de dar autonomia para essas profissionais. Para elas trabalharem, conseguirem criar os seus processos. Enfim, para elas também se sentirem pertencentes a esses espaços.”

Larissa também destacou esse efeito. Segundo ela, a presença de mulheres em posições de decisão ajuda a modificar a percepção sobre quem pode ocupar esses espaços. “Outra coisa é elas viverem o dia-a-dia com mulheres que tomam decisões relevantes, com mulheres que comandam processos”, analisou a profissional, citando ainda a baixa presença de mulheres entre árbitras e treinadoras como um exemplo de como a falta de representatividade pode limitar novas candidaturas. “Mas elas nem enxergam que aquele lugar é para elas”, refletiu.

Famílias também fazem parte da formação

Na parte final do painel, as participantes discutiram a influência das famílias e das redes sociais no desenvolvimento das atletas. Larissa defendeu que os familiares precisam estar próximos do processo de formação, mas também precisam receber orientação sobre como lidar com as particularidades de uma jovem atleta.

“Acho que a gente ainda tem uma coisa no futebol de achar que as famílias têm que ficar longe. Porque dá trabalho, de fato, mas a família tem um papel essencial na formação daquele atleta, daquela atleta. A maior influência que esse jo0vem tem é a família”, disse ela, ressaltando que participação dos familiares precisa ser acompanhada de informação e diálogo, principalmente quando se trata de atletas adolescentes submetidas a uma rotina de alto rendimento.

Rafaela reforçou que a responsabilidade pela formação precisa ser compartilhada entre clubes, famílias e profissionais. Para ela, acolher uma atleta vai muito além de oferecer alojamento e estrutura esportiva. “Você tem que ter uma assistente social, uma pedagoga, uma psicóloga. Você tem que ter uma equipe muito disciplinar por trás para dar todo o amparo e o respaldo para essa atleta”, acrescentou.

Um futuro construído desde a base

As discussões do painel mostraram que o futuro do futebol feminino não depende apenas do surgimento de novas atletas, mas das condições oferecidas para que elas possam começar, permanecer e evoluir dentro da modalidade.

Garantir campos e competições para meninas, estruturar departamentos de futebol feminino, profissionalizar relações de trabalho, ampliar a presença de mulheres em cargos de liderança e criar ambientes seguros aparecem como partes de um mesmo processo.

Suleima Sena, Júlia Vergueiro, Rafaela Esteves e Larissa Li

Mais do que preparar jogadoras para o alto rendimento, as participantes defenderam a construção de uma estrutura capaz de deixar um legado para as próximas gerações. A ideia é que as meninas que hoje chegam ao futebol não apenas encontrem espaço para jogar, mas também possam, no futuro, ocupar os lugares de decisão e abrir caminho para outras mulheres.

Fotos: Elas Jogam Summit

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *