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Congelamento de óvulos no futebol: liberdade ou uma forma mais sofisticada de pedir que a mulher espere?

A Real Federación Española de Fútbol (RFEF) está ultimando um acordo com uma clínica de fertilidade para financiar o congelamento de óvulos das jogadoras da seleção espanhola. A informação foi revelada por Alexia Putellas em entrevista ao El País Semanal e confirmada pela própria federação à Europa Press.

Os detalhes,  quais tratamentos serão cobertos, quem terá acesso e por quanto tempo os óvulos poderão ser preservados, só devem ser apresentados em meados de setembro, quando o convênio for assinado. Mas a notícia já é suficiente para abrir uma discussão que o futebol feminino não pode mais adiar: até que ponto essas medidas libertam as atletas, e até que ponto elas apenas empurram a maternidade para depois da vida útil da carreira?

Uma demanda das próprias jogadoras

É importante começar pelo ponto mais relevante desse caso: a iniciativa não nasceu de cima para baixo. Segundo Putellas, foram as próprias capitãs da seleção que levaram a pauta à federação, relatando a dificuldade de conciliar uma carreira esportiva de alto rendimento com o desejo de ser mãe.

Na entrevista, a jogadora chamou a medida de “um avanço enorme”, porque, segundo ela, a federação passa a reconhecer que a atleta está a serviço do país “contra o próprio tempo biológico” sem poder parar, porque precisa do corpo para trabalhar.

Essa frase resume bem o paradoxo central do debate. Se por um lado é positivo que uma federação nacional assuma custos que até então recaíam inteiramente sobre a atleta, por outro lado a frase de Putellas expõe uma tensão que nenhuma clínica de fertilidade resolve: o calendário do futebol de elite não foi desenhado para o corpo de uma mulher que também pode querer engravidar aos 25, aos 28 ou aos 30 anos, no auge esportivo.

Diante disso, a instituição tem duas opções, adaptar o calendário e as condições de trabalho à vida real das mulheres, ou financiar uma tecnologia que adia o problema. A RFEF, por ora, escolheu a segunda.

O atraso estrutural que chega até aqui

Para entender por que essa notícia pesa tanto, é preciso lembrar de onde o futebol feminino profissional está saindo. Foi somente em 2021 que passou a valer, em nível global, uma primeira licença-maternidade mínima estabelecida pela FIFA dentro do Regulamento sobre o Estatuto e Transferência de Jogadores: catorze semanas de afastamento remunerado, com pelo menos oito delas após o parto, e salário de no mínimo dois terços do valor integral. Antes disso, sequer havia um piso internacional, cada clube ou federação definia (ou simplesmente ignorava) a questão por conta própria.

Em junho de 2024, essas regras foram ampliadas: passaram a incluir licença para adoção, licença familiar para mães não biológicas em relações homoafetivas, proteção contra demissão ou rescisão de contrato por gravidez, e o direito de a atleta se ausentar de treinos e jogos por questões de saúde menstrual sem perda salarial.

São conquistas relevantes, mas que só existem porque o futebol feminino profissional, tal como o conhecemos, tem pouco mais de uma década de estruturação em boa parte do mundo. Um direito básico de qualquer trabalhadora levou décadas para virar regra do esporte.

O caso Ketlen: o outro lado possível

Enquanto a Espanha discute o financiamento do adiamento da maternidade, o Brasil tem, neste ano, um exemplo do caminho oposto: o de adaptar a estrutura para permitir que a maternidade aconteça durante a carreira, sem interromper o vínculo entre mãe e filho.

Ketlen Wiggers, maior artilheira da história do Santos e do futebol feminino do clube, treinou acompanhada por sua comissão técnica até o oitavo mês de gestação, com o retorno aos gramados planejado desde a gravidez.

Após o nascimento de Lucca, em novembro de 2025, ela se tornou a primeira atleta beneficiada por uma nova norma da CBF, anunciada em novembro daquele ano e válida a partir da temporada 2026: a confederação passou a custear transporte, hospedagem e alimentação do filho de atletas em fase de amamentação, além das despesas de um acompanhante responsável pela criança durante as competições nacionais.

Em julho, Ketlen viajou pela primeira vez com o bebê e a delegação do Santos para um jogo fora de casa, contando com a própria mãe como cuidadora de Lucca durante as partidas.

Filho de Ketlen esteve presente na deleção do Santos | Reinaldo Campos/ Santos FC
Filho de Ketlen esteve presente na deleção do Santos | Reinaldo Campos/ Santos FC

É simbólico que, no mesmo pacote de mudanças, a CBF também tenha determinado que os clubes da Série A1 passem a manter contrato profissional com todas as jogadoras a partir de 2027 — outro ponto que caminha na direção de tratar a atleta como trabalhadora, e não como recurso descartável.

Colocar os dois casos lado a lado não é dizer que um modelo está certo e o outro errado. É mostrar que existe mais de um caminho possível para lidar com a mesma tensão: enquanto a Espanha investe em adiar, o Brasil, nesse episódio específico, investe em viabilizar a maternidade dentro da rotina competitiva. O ideal, na verdade, é que as duas frentes existam ao mesmo tempo — e que uma não sirva de desculpa para a ausência da outra.

O que o congelamento de óvulos não resolve

É preciso dizer com todas as letras: a preservação de óvulos é uma ferramenta médica real, e pode sim ampliar a autonomia reprodutiva de uma mulher. Mas ela tem limites que o entusiasmo institucional costuma esconder.

Segundo a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, o congelamento de óvulos aumenta as chances futuras de gravidez, mas não garante uma gestação — as taxas de sucesso variam de acordo com a idade da mulher no momento do congelamento, a quantidade e a qualidade dos óvulos coletados, e uma série de outros fatores individuais. Tratar esse procedimento como uma espécie de seguro biológico infalível é, no mínimo, uma meia-verdade perigosa para quem está decidindo sobre o próprio corpo.

Além disso, uma pergunta segue sem resposta: o que a RFEF oferece à jogadora que, mesmo com esse benefício disponível, decide engravidar agora, no meio da carreira, e não depois? Se a federação financia o adiamento mas não constrói, ao mesmo tempo, contrato protegido, retorno seguro à titularidade, convocação garantida e infraestrutura para amamentação, o benefício deixa de ser uma opção entre outras e passa a carregar um recado implícito: primeiro o futebol, depois o filho.

Uma assimetria que ainda não foi enfrentada

Vale lembrar de uma comparação simples, mas incômoda: jogadores homens se tornam pais no auge da carreira o tempo todo, sem que ninguém questione publicamente se a paternidade vai prejudicar o rendimento em campo. Ninguém propõe a um atleta homem que congele nada para “não atrapalhar o time”.

A gravidez, porém, ainda é tratada institucionalmente e simbolicamente como um desvio de rota que precisa ser gerenciado, adiado ou compensado. Isso não é um detalhe: é a assimetria estrutural que sustenta boa parte das discussões sobre maternidade no esporte de alto rendimento.

O que faria dessa medida, de fato, um avanço

Financiar o congelamento de óvulos pode, sim, representar um passo à frente desde que cumpra algumas condições que ainda não estão garantidas em nenhum acordo conhecido até agora:

  • Ser uma escolha voluntária, sem qualquer pressão direta ou indireta da comissão técnica, do clube ou da federação;
  • Ter confidencialidade médica plena, sem impacto em convocações ou negociações contratuais;
  • Vir acompanhada de proteção contratual explícita para quem decidir engravidar durante a carreira, e não apenas para quem decidir adiar;
  • Incluir apoio médico contínuo, antes, durante e depois do procedimento;
  • Garantir retorno seguro ao time titular após a licença-maternidade, sem perda de posição ou de espaço;
  • Oferecer condições estruturais para a amamentação e para a presença do bebê durante viagens e competições, como já faz a CBF no caso de Ketlen;
  • Estar apoiada por uma rede de cuidado que não dependa exclusivamente do esforço pessoal da atleta e da família dela.

Sem esse conjunto de garantias, a liberdade anunciada corre o risco de ser apenas um verniz mais sofisticado sobre uma exigência antiga: a de que a mulher continue provando que pode ser produtiva antes de poder ser mãe.

A pergunta que fica

Liberdade não é apenas ter a opção de adiar. Liberdade é ter condições reais médicas, contratuais e estruturais para decidir quando, e se, quer ser mãe, sem que essa decisão custe a carreira, a titularidade ou a convocação. A RFEF ainda tem até meados de setembro para mostrar se o acordo com a clínica de fertilidade vem acompanhado desse tipo de estrutura, ou se vai ficar só no gesto.

Foto: Reinaldo Campos/ Santos FC

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