Entre conquistas históricas e renovação de elenco, a treinadora holandesa marcou seu nome na história do futebol inglês
Na última semana, a treinadora Sarina Wiegman completou cinco anos à frente da seleção inglesa, consolidando na Inglaterra uma trajetória que transformou as Lionesses em um fenômeno cultural e esportivo através da profissionalização do esporte e do forte impacto social.
O ciclo iniciado em 2021 elevou a equipe a um patamar inédito com mais de 70% de aproveitamento, alinhando excelência tática, renovação do elenco, apoio à luta por acesso ao futebol nas escolas e uma conexão histórica com a torcida britânica.
A trajetória da treinadora holandesa começou com uma goleada por 8 a 0 sobre a Macedônia do Norte e se transformou na era mais vitoriosa da história das Lionesses. Meses após a estreia, a holandesa viu a seleção alcançar o maior placar da história do time: um sonoro 20 a 0 sobre a Letônia, com hat-tricks de Alessia Russo, Beth Mead, Lauren Hemp e Ellen White.
No ano seguinte, em fevereiro de 2022, as inglesas garantiram a primeira edição da Arnold Clark Cup com uma vitória por 3 a 1 contra a Alemanha. Em 2023, a equipe liderada por Sarina defendeu e manteve o título. Além disso, o primeiro grande troféu da técnica no comando da seleção veio no verão de 2022, quando a equipe se sagrou campeã europeia.
Mudança na braçadeira de capitã

Em abril de 2022, antes da Eurocopa, Sarina decidiu tornar Leah Williamson capitã da seleção inglesa. A antiga dona da braçadeira era Steph Houghton, mas, como ela estava lesionada, Wiegman optou por passar a liderança em definitivo para Leah.
A escolha foi um marco da gestão da treinadora: Leah representava a transição para uma nova geração de líderes — mais jovem, moderna, tecnicamente refinada na saída de bola e com forte voz dentro e fora de campo. Foi Leah, inclusive, quem levantou a taça da Euro 2022 em Wembley.
Esse processo de transição foi uma das maiores virtudes táticas e de gestão humana de Sarina Wiegman. Após o título de 2022, nomes históricos como Ellen White (maior artilheira da história da seleção) e Jill Scott se aposentaram. Antecipando o “vazio” técnico e de liderança que essas saídas poderiam deixar; o que costuma fazer o desempenho de grandes equipes despencar; Sarina evitou a crise com uma estratégia em duas frentes, absorvendo a mudança naturalmente por já vir preparando as substitutas.
Alessia Russo assumiu o ataque mantendo uma taxa de gols altíssima, enquanto nomes como Chloe Kelly e Lauren James ganharam cada vez mais protagonismo e liberdade para decidir jogos grandes. A renovação não foi feita de forma drástica ou impulsiva: a técnica holandesa manteve a espinha dorsal de experiência (com jogadoras como Lucy Bronze, Millie Bright e Mary Earps) enquanto foi inserindo as jovens promessas no sistema tático.
O resultado foi uma seleção que se renovou em idade e energia, mantendo a mesma mentalidade fria e vencedora.
A caminho da elite mundial
Com estratégia e um estilo de comunicação calmo e focado no processo, a treinadora conseguiu diminuir a extrema pressão da imprensa britânica sobre as jogadoras e levou as Lionesses à final da Copa do Mundo de 2023, um ano após a glória na Eurocopa, alcançando o feito pela primeira vez na história.
Antes de Wiegman, a Inglaterra costumava cair nas semifinais dos grandes torneios. Sarina implementou uma mentalidade altamente competitiva, ensinando a equipe a gerir o ritmo dos jogos e reverter placares adversos em momentos decisivos. Sua atuação, inclusive, ficou marcada por repetir escalações quando encontrava o time ideal, mas também por usar as substituições de forma cirúrgica.
Um exemplo marcante dessa leitura de jogo ocorreu em 27 de julho de 2025, quando a Inglaterra empatou com a Espanha na final da Eurocopa e faturou o título após o pênalti convertido por Chloe Kelly. O feito relembrou o protagonismo da atacante na Euro de 2022, quando ela saiu do banco para marcar o histórico gol do título na prorrogação contra a Alemanha.
Acionada com frequência por Sarina como uma “super substituta” para mudar o rumo das partidas decisivas, Kelly voltou a decidir em 2025, selando o bicampeonato consecutivo da Inglaterra e o terceiro troféu europeu seguido da carreira da treinadora.

Reformulação da estrutura e o alcance social do futebol feminino inglês
Além da evolução tática em campo, a passagem de Sarina Wiegman reformulou a estrutura e o alcance social do futebol feminino inglês. No âmbito profissional, a treinadora elevou o nível da seleção ao integrar análises de dados, alta preparação física e suporte de saúde em sintonia direta com os clubes da Women’s Super League (WSL), transformando lampejos isolados de talento em uma rotina de vitórias com aproveitamento superior a 70%.
Liderança transformadora
Paralelamente, Wiegman fortaleceu a voz das atletas fora dos gramados, apoiando ativamente reivindicações históricas — como a carta aberta ao governo britânico que garantiu a prática do futebol para meninas nas escolas de todo o país. Essa liberdade permitiu que lideranças como a capitã Leah Williamson se tornassem verdadeiras referências culturais no Reino Unido.
Hoje, Williamson usa seu espaço em entrevistas para conscientizar sobre temas sociais e gerações futuras — afirmando categoricamente em declaração recente que, se tivesse filhos, “eles com certeza não teriam um celular” —, demonstrando uma postura protetora e inspiradora que transcende o esporte. Essa combinação de excelência esportiva, responsabilidade social e forte conexão com o público lotou o Estádio de Wembley, quebrou recordes de audiência na TV e consolidou as Lionesses como um verdadeiro fenômeno cultural.
A treinadora acumulou diversos prêmios que coroaram seu trabalho à frente da seleção inglesa. No prêmio The Best de 2025 — em que concorreu com nomes como Sonia Bompastor, Jonatan Giráldez, Renee Slegers e Seb Hines —, saiu novamente vitoriosa.
O feito se repetiu no prêmio Bola de Ouro de 2025 (troféu que já havia faturado em 2017 e 2020 no comando da Holanda, e em 2022 e 2023 já dirigindo a Inglaterra), superando o treinador da seleção brasileira Arthur Elias ao ser eleita, mais uma vez, a melhor do mundo.
Foto: IMAGO / IPA Sport




