Autora de gol decisivo contra o Flamengo no jogo de ida das quartas da Copa do Brasil, zagueira abre o jogo sobre o início da carreira, experiências em equipes no exterior e a volta por cima após lesão de LCA
Se contassem para a garotinha que pedia a bicicleta do tio emprestada para ir treinar debaixo de sol e chuva que um dia ela atuaria na Ásia, na Europa e seria peça-chave do Fluminense em grandes competições como a Copa do Brasil, ela não se surpreenderia: simplesmente ajeitaria o guidão e aceleraria ainda mais o passo. Foi o que fez Nathália Gonçalves Rodrigues.
Aos 30 anos e vivendo fase iluminada nas Laranjeiras, a zagueira das Guerreiras do Flu olha para trás com a certeza de que a menina nascida em São Paulo fez certo em teimar com o destino e não desistir de seus sonhos.
A trajetória da atleta é desenhada por coragem, sacrifício, determinação e persistência. Começou na infância, ao se impor como a única garota no futebol de rua; passou pelo aperto financeiro dos tempos de futsal – quando faltava dinheiro até para roupas e taxas de jogos – e se estendeu às vivências internacionais em Portugal e na China.
Mais recentemente, envolveu encarar uma grave lesão no joelho em 2023 para, na última quinta feira (15), comemorar um gol decisivo sobre o Flamengo no jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil feminina.

Em entrevista exclusiva ao Donas FC, Nath relembra como a paixão de criança virou objetivo de vida, relembra as cicatrizes dessa caminhada, detalha o fortalecimento mental para dar a volta por cima após lesão em 2023 e reafirma a sede de transformar cada sacrifício em título com a camisa do Fluminense.
Donas FC – Nath, como foi exatamente o seu primeiro contato com o futebol? A sua família já tinha alguma ligação com o esporte ou essa paixão surgiu através de uma descoberta sua?
Nath – Meu primeiro contato com o futebol surgiu de uma paixão que foi crescendo naturalmente dentro de mim. Minha família não tinha ligação com o esporte, então foi algo que partiu de mim, uma descoberta minha desde pequena gostava muito de jogar bola, vivia na rua jogando com os meninos, “era só eu de menina”, fui me apaixonando cada vez mais por esse esporte. Com o tempo, aquilo que começou como uma paixão se transformou em um sonho e, depois, em um objetivo de vida. Fui entendendo que era isso que eu queria para mim e comecei a correr atrás desse sonho. Hoje, o futebol faz parte de quem eu sou, e sou muito grata por ter seguido esse caminho e por tudo o que ele vem me proporcionando.
Donas FC – Muitas jogadoras relatam ter enfrentado resistência dentro de casa quando decidiram seguir carreira no futebol. Como foi essa experiência na sua família? Você teve apoio para dar os primeiros passos no esporte?
Nath – Na minha família, o futebol não era algo presente, então foi uma experiência nova para todos nós. Como não havia essa ligação com o esporte, fui descobrindo esse caminho por mim mesma e construindo meu sonho aos poucos. Como em qualquer trajetória, existem desafios mas a minha vontade de jogar e de seguir no futebol sempre foi maior. Fui persistindo, buscando meu espaço e mostrando, através das minhas atitudes, que esse era o caminho que eu queria seguir. Hoje, olhando para trás, vejo o quanto valeu a pena acreditar em mim e não desistir do meu sonho.

Donas FC – Como era praticar futebol no início da sua trajetória e quais foram os principais desafios que enfrentou para continuar jogando?
Nath – No início da minha trajetória, praticar futebol era a realização de uma paixão, mas também foi uma fase de muitas dificuldades. Comecei jogando futsal e, desde o início, precisei enfrentar muitos obstáculos para continuar fazendo o que eu amava. Minha maior dificuldade era o transporte e a questão financeira, eu pegava a bicicleta emprestado do meu tio pra ir treinar todos os dias de manhã embaixo de sol e chuva, isso quando eu estava indo jogar na portuguesa que foi meu primeiro clube de futebol.. quando jogava futsal muitas vezes era difícil conseguir dinheiro para pagar as roupas, as taxas dos jogos e tudo aquilo de que eu precisava para continuar jogando. Mesmo com essas dificuldades, eu não queria desistir do meu sonho. Muitas vezes, era preciso encontrar forças para continuar, mesmo quando as condições não eram favoráveis. Foi uma fase que me ensinou muito sobre persistência, sacrifício e determinação. Hoje, quando olho para trás, vejo que cada dificuldade fez parte da minha construção como atleta e como pessoa. Tenho orgulho de não ter desistido, porque sei de tudo o que precisei enfrentar para chegar até aqui e continuar buscando meus objetivos dentro do futebol.
Donas FC – Você viveu o futebol em duas realidades bastante distintas, em Portugal e na China. Quais foram as principais diferenças que encontrou entre esses dois países, tanto na cultura quanto na forma de jogar futebol? E como essas experiências influenciaram sua maneira de enxergar o esporte e sua própria carreira?
Nath – Jogar em Portugal e na China foram experiências muito importantes para a minha carreira, porque pude conhecer duas culturas diferentes e enxergar o futebol de outras maneiras. Em Portugal, senti algumas semelhanças com o futebol brasileiro, tanto pela língua quanto pela forma de viver o esporte. Já na China, encontrei uma cultura bem diferente, o que me fez sair ainda mais da minha zona de conforto, aprender a me adaptar e entender outras formas de trabalhar e competir. Dentro de campo, cada país tem suas particularidades, sua intensidade e sua maneira de enxergar o jogo. Essas experiências me ajudaram a evoluir não só como atleta, mas também como pessoa. Aprendi a ser mais independente, a lidar com desafios, a respeitar as diferenças e a valorizar cada oportunidade que o futebol me proporciona. Hoje, vejo que jogar fora do Brasil vai muito além de atuar em outro país. É uma oportunidade de amadurecer, ampliar meus conhecimentos e crescer profissionalmente. Tudo o que vivi em Portugal e na China faz parte da minha história e contribuiu para a jogadora que sou hoje, me dando ainda mais vontade de continuar evoluindo e conquistando meus objetivos no futebol.

Donas FC – Você já atuou no exterior e acumulou experiências bem diferentes no futebol. Agora, vivendo a reta final da Copa do Brasil pelo Fluminense, como você avalia esse momento da sua carreira? De que maneira sua experiência pode contribuir para o time na busca pelo título?
Nath – Avalio esse momento da minha carreira como uma fase muito especial e importante. Ter a oportunidade de disputar a reta final da Copa do Brasil com a camisa do Fluminense é motivo de muito orgulho e também de muita responsabilidade. Tudo o que vivi ao longo da minha trajetória, inclusive as experiências no exterior, me trouxe aprendizados que levo comigo dentro e fora de campo. Acredito que essas experiências podem contribuir muito para o grupo, principalmente pela maturidade, pela capacidade de adaptação e pela tranquilidade para lidar com diferentes situações dentro de campo. Sei que, em jogos decisivos, cada detalhe faz a diferença, e procuro contribuir com minha entrega, minha experiência, minha força e minha vontade de ajudar a equipe a alcançar seus objetivos. Estamos em um momento em que precisamos estar ainda mais unidas, concentradas e comprometidas, porque sabemos o quanto esse título é importante. Vou continuar trabalhando, dando o meu melhor e fazendo tudo o que estiver ao meu alcance para ajudar o Fluminense nessa caminhada. Vestir essa camisa é uma honra, e poder lutar por um título tão importante com esse grupo é uma oportunidade que quero aproveitar ao máximo. Nosso objetivo é seguir acreditando, trabalhando e lutando até o fim para conquistar esse título para o Fluminense e para a nossa torcida.
Donas FC – Em junho de 2023, você sofreu uma lesão no ligamento cruzado anterior (LCA) e chegou a falar sobre o recomeço nas redes sociais. Em março de 2026, você conquistou a Copa Rio pelo Fluminense. O que essa conquista representou para você depois de todo o processo de recuperação?
Nath – Essa conquista teve um significado muito especial para mim, porque por trás daquele título existia uma história de muita luta, superação e fé. A lesão no LCA, em junho de 2023, foi um dos momentos mais difíceis da minha carreira. Precisar parar, passar por todo o processo de recuperação e lidar com a ansiedade de voltar a fazer o que amo exigiu muita força física e, principalmente, mental. A recuperação me ensinou a respeitar meu tempo, a ter paciência e a acreditar que, mesmo nos momentos mais difíceis, era possível recomeçar. Houve muitos desafios ao longo desse caminho muito mesmo, mas nunca deixei de acreditar no meu potencial e no sonho de continuar vivendo o futebol. Por isso, ser campeã da Copa Rio pelo Fluminense, em março de 2026, foi muito mais do que conquistar um título. Foi olhar para trás e perceber que todo o esforço, cada dificuldade e cada etapa da recuperação valeram a pena. Foi a confirmação de que eu era capaz de voltar, superar meus limites e continuar realizando meus sonhos dentro de campo. Essa conquista tem um lugar muito especial na minha história, porque me lembra de tudo o que precisei enfrentei para chegar até aqui. Sou muito grata a Deus por me sustentar durante todo esse processo e por me permitir viver momentos como esse. Sem dúvida, foi uma vitória que vai muito além do futebol: foi uma vitória pessoal, que me mostrou ainda mais a força que tenho para continuar lutando pelos meus objetivos.

Donas FC – Em uma publicação nas redes sociais em 2023, você escreveu: “O bom de estarmos em constante evolução é que podemos surpreender não só os outros, mas com nós mesmos também”. Olhando para sua trajetória nos últimos anos, o que mais surpreendeu você mesma e o que ainda deseja conquistar com a camisa do Fluminense?
Nath – Acho que o que mais me surpreendeu foi perceber a força que tenho para superar os desafios e continuar correndo atrás dos meus sonhos, mesmo quando as coisas não acontecem como a gente espera. A lesão no LCA, em 2023, foi um momento muito difícil para mim, mas me ensinou muito. Voltar aos campos, recuperar a confiança e conseguir competir novamente me fez enxergar o quanto sou capaz de superar as dificuldades e o quanto amo estar dentro de campo. Quando olho para tudo o que vivi, desde as experiências fora do Brasil até o meu retorno depois da lesão, vejo o quanto amadureci, não só como atleta, mas também como pessoa. A conquista da Copa Rio foi um momento muito especial, que me fez lembrar de todo o caminho que percorri para chegar até aqui e de tudo o que precisei superar ao longo dessa trajetória. Com a camisa do Fluminense, quero conquistar títulos, continuar evoluindo e ajudar o clube a alcançar seus objetivos. Quero aproveitar cada oportunidade, dar o meu melhor e construir uma história bonita aqui. Sei que ainda tenho muito a aprender e conquistar, e isso me motiva a trabalhar cada vez mais. Hoje, valorizo muito mais cada momento e sigo com muita vontade de crescer e realizar meus sonhos dentro do futebol.
A trajetória de Nath Rodrigues mostra que a persistência foi fundamental para superar os obstáculos e seguir construindo sua carreira no futebol. Da infância nos campos de rua às experiências internacionais, passando pela recuperação de uma lesão grave, a zagueira chega à reta decisiva da Copa do Brasil Feminina com a experiência de quem precisou recomeçar para voltar a competir em alto nível.
Agora, com a camisa do Fluminense, Nath busca transformar mais um capítulo de sua história em conquista e ajudar as Guerreiras do Flu a chegar ao título inédito da competição.
Foto: Marina Garcia/ Fluminense




