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Flávia Giovanna leva bagagem internacional ao futebol de Taiwan: “Coisas ruins acontecem para que o seu melhor floresça”

Flávia Giovanna leva bagagem internacional ao futebol de Taiwan: “Coisas ruins acontecem para que o seu melhor floresça”

Ex-atacante do Flamengo relembra viradas na carreira, o ciclo vitorioso no Rubro-Negro e detalha a rotina e os desafios da adaptação ao Kaohsiung Attackers, de Taiwan

Se a noite anterior ao voo para Israel parecia o ínicio de um pesadelo — com um incêndio na cozinha do quartel em que estava, a perda do embarque e a incerteza do que viria pela frente —, o desfecho provou o contrário: ali nascia uma das fases mais brilhantes da carreira de Flávia Giovanna. A atacante, que chegou ao Kiryat Gat em 2021, foi campeã da liga nacional naquele ano, e terminou a temporada como artilheira, melhor estrangeira e MVP da competição.

Com essa mesma capacidade de encarar desafios, de se adaptar a diferentes situações, Flávia agora vivencia um novo capítulo da carreira no Kaohsiung Attackers FC, em Taiwan. Entre o idioma desafiador e as diferenças culturais do dia a dia na Ásia, a jogadora apoia-se na rotina e no amor pelo futebol para se adaptar rapidamente ao novo país.

A trajetória da atleta natural de Resende (RJ) sempre foi pautada pelo trabalho duro. Na adolescência no bairro de Alegria, recolhia materiais recicláveis para arcar com as passagens de ônibus até Volta Redonda, onde treinava. A dedicação logo virou conquista: no Flamengo/Marinha, integrou a vitoriosa campanha do time rugro negro somando 66 gols em 96 jogos e fazendo parte da conquista do tetracampeonato carioca entre 2017 e 2021.

No exterior, além do sucesso em Israel nas primeiras temporadas que atuou no Kiryat Gat, vivenciou momentos de tensão com os conflitos em Jerusalém em 2023, antes de retornar ao Brasil para atuar por Pérolas Negras e Juventude.

Em entrevista ao Donas FC, Flávia Giovanna fala sobre a rotina, o dinamismo nos treinos asiáticos, relembra as memórias marcantes e a fé fortalecida em Israel, e destaca o valor de ajudar o próximo, relembrando os apoios que recebeu desde o início da carreira, até se tornar quem é hoje.

Donas FC — Flávia, o futebol na Ásia costuma ser muito veloz e tático. Qual foi o maior choque ou diferença que você sentiu ao migrar do futebol brasileiro para a Mulan Football League em Taiwan?

Flávia — Acho que, pra mim, a comunicação. Recebemos um arquivo do que vai ser o treino todo dia, incluindo academia. Isso fica mais dinâmico. Saímos de uma parte do treino, só bebemos água e já vamos para o próximo treino, e todo mundo aqui já sabe o que é pra fazer. No Brasil, tudo que vamos treinar recebemos no cronograma semanal e, todo dia, o treinador fala o que ele quer que a gente faça no treino. Acho que só isso.

Donas FC — Como você tem usado a sua bagagem do futebol brasileiro para “furar” as defesas adversárias em Taiwan? Existe algum aprendizado em especial que aprendeu com o futebol brasileiro, que carrega com você durante sua atuação no Kaohsiung Attackers?

Flávia — Acho que uma das coisas que mais levo do futebol brasileiro é a criatividade e a capacidade de me adaptar a diferentes situações dentro de campo. O futebol brasileiro me ensinou a buscar soluções, ter confiança nas jogadas e não ter medo de arriscar. Aqui em Taiwan, tento usar essa experiência para ajudar a equipe, seja criando oportunidades, buscando espaços ou tomando decisões rápidas. Acredito que cada lugar tem seu estilo de jogo e procuro unir o que aprendi no Brasil com o que estou aprendendo aqui.

Donas FC — Como tem sido a sua rotina e a adaptação cultural em Kaohsiung no dia a dia (idioma, alimentação, clima)?

Flávia — Bom, aqui treinamos só na parte da manhã. Então, eu acordo, tomo banho, faço meu café, tomo e vou para o treino. São 5 minutos de caminhada do meu apartamento para o clube. Treinamos no campo duas horas e, depois, quando acaba o treino, vamos direto para a academia. À tarde, costumo andar de bike um pouco e conhecer alguns lugares. A língua aqui é bem difícil de se aprender, mas, no futebol, como são sempre falas repetitivas, pouco a pouco você vai se acostumando. Demorei um pouco para me acostumar com a cultura, é bem diferente aqui, mas agora já entrei na rotina.

Donas FC — O clube vem de uma temporada fortíssima, batendo recorde de público e brigando em altíssimo nível até o fim. Como você enxerga a estrutura do futebol feminino em Taiwan e o carinho dos torcedores locais com você e com a equipe?

Flávia — Eu tive dois jogos até agora na competição e o que eu vi é que o time é bem tático e rápido. Primeiro jogo em casa, torcida bem aconchegante. Vamos esperar os outros jogos. Até o momento, foi tudo bem tranquilo.

Flávia Giovanna pelo Hapoel Jerusalem | Reprodução/Redes Sociais
Flávia Giovanna pelo Hapoel Jerusalem | Reprodução/Redes sociais

Donas FC — Em 2021, no Kiryat Gat, você viveu uma temporada perfeita: além do título nacional, foi eleita a melhor jogadora, artilheira e melhor estrangeira do campeonato. Como foi viver essa fase? Pode nos contar algumas recordações que você guarda dessa passagem por lá?

Flávia — Minha ida para Israel foi um pouco conturbada, porque, na noite anterior à viagem, aconteceu um incêndio na cozinha do quartel onde eu estava. Acabei perdendo meu voo por conta de toda a situação, mas conseguiram me colocar em outro.

Quando cheguei ao Kiryat Gat, a competição já tinha começado e eu nem imaginava tudo o que estava por vir. Morei com a Carol e a Sandrinha, que foram muito importantes para mim, principalmente na minha aproximação com Deus. Foi um período em que minha fé se fortaleceu muito.

Dentro de campo, as coisas foram acontecendo naturalmente. Eu estava vivendo uma fase muito boa, com o apoio das minhas companheiras, que foram fundamentais para todas essas conquistas. Ser campeã, artilheira e receber os prêmios individuais foi algo que eu não imaginava quando cheguei. 

Guardo essa passagem com muito carinho e gratidão. Acredito que Deus teve um papel fundamental em tudo o que vivi naquele ano. Foi uma fase que me marcou não só como atleta, mas também como pessoa.

Donas FC — Olhando para trás, desde o início em Resende até acumular títulos e prêmios de MVP no exterior, qual foi a lição mais importante que você carrega dessa jornada para os momentos de pressão hoje?

Flávia — Primeiro, eu sempre vou dizer Deus e, depois, manter os pensamentos positivos de que coisas ruins acontecem para que o seu melhor floresça. E, se tiver a oportunidade de ajudar alguém e fazer o bem, ajude, porque eu recebi muitas ajudas desde o início para chegar aqui e me tornar quem eu sou hoje.

Flávia Giovanna no Flamengo-Marinha | Reprodução/ Ivan Raupp
Flávia Giovanna no Flamengo-Marinha | Reprodução/ Ivan Raupp

Metas no Attackers 

Focada em entregar o seu melhor em campo, Flávia Giovanna coloca os objetivos do grupo em primeiro lugar, mantendo a ambição em alta para a sequência no Kaohsiung Attackers. A jogadora acredita que o sucesso pessoal é consequência direta do trabalho em equipe e prefere deixar que eventuais prêmios surjam de forma espontânea.

“Eu sempre acredito que quero ser campeã de tudo e que as conquistas individuais vêm com o coletivo. Faço o melhor pela equipe e deixo as conquistas individuais acontecerem naturalmente”, finaliza. 

Foto: Divulgação/ Vibes Sport Marketing

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