Painel no Rio de Janeiro mediado por Luana Trindade discutiu como transformar o crescimento da modalidade em representatividade, poder de decisão e legado sustentável para o pós-Copa de 2027
A Confut Sudamericana 2026 começou em grande estilo na última terça-feira (8), no Grand Hyatt, no Rio de Janeiro. Consolidando-se como um dos principais pontos de encontro da indústria esportiva na América do Sul, possibilitando a reunião de executivos, profissionais de clubes e outros especialistas da área esportiva em uma estrutura dividida em três palcos simultâneos (Palco Pelé by Genius Sports, Palco Maradona e Palco 360 by NR Sports), o evento trouxe como um dos temas para o debate a formação de novas lideranças femininas e o poder de decisão das mulheres na gestão do esporte.
Conduzido pela jornalista Luana Trindade, o painel reuniu especialistas de marketing, executivas e dirigentes para debater os entraves que ainda impedem a presença de mulheres nos cargos mais altos das instituições esportivas no Brasil. A conversa mostrou que o movimento extrapola os campos de futebol e leva a discussão desde as arquibancadas — onde as mulheres assumem cada vez mais a frente das torcidas organizadas — até a alta cúpula dos clubes.
Poder de decisão “com a caneta na mão” e aceleração de carreiras
Durante o debate, as convidadas refletiram sobre a baixa representatividade feminina na presidência e nas diretorias executivas no país. Foi abordada a necessidade de capacitação profissional e da criação de programas de aceleração em liderança para que as profissionais reconheçam e ocupem esses espaços de poder.
“Apenas ser diretora de responsabilidade social ou de futebol feminino não basta. A questão central é ver as mulheres com a caneta na mão para poderem decidir nos espaços de alta gestão. E essa oportunidade de capacitação precisa ser viabilizada por quem organiza o futebol no Brasil, a começar pela CBF e pelos próprios clubes”, defendeu o painel.
A prática provou que o futebol só se transforma verdadeiramente quando é pensado por mulheres. Exemplo disso foi lembrado no painel: a iniciativa pioneira de Eveline Maia à frente da Diretoria da Mulher no Paysandu, que trouxe para a realidade do clube ações simples e essenciais, como a disponibilização de kits de higiene e absorventes nos banheiros dos estádios, além da capacitação de funcionários.
Poliana, representante do setor de marketing do Esporte Clube Juventude no painel, reforçou a importância da postura ativa das mulheres e da busca por oportunidades dentro das instituições: “Todo mundo que chega a um lugar não chega sozinho, mas precisamos nos impor, tomar a iniciativa e fazer acontecer com força e determinação. A oportunidade surge para quem está disposto a realizar.”

Experiência de campo e a gestão nos clubes
O painel também destacou o trabalho prático realizado dentro dos clubes brasileiros:
Falando em nome do Esporte Clube Juventude Poliana relembrou sua trajetória desde o estágio até a diretoria, enfatizando a luta por infraestrutura digna para torcedoras, arbitragem, imprensa e atletas, defendendo que o futebol feminino deve ser visto sempre como uma profissão estruturada.
Já a diretora institucional do clube Internacional, Rosângela (conselheira há seis anos), e a executiva Renata Miliato abordaram a sinergia entre a política do clube e a execução profissional. Renata ressaltou o valor do respeito e da autonomia concedida pela presidência para gerar resultados duradouros, defendendo que os clubes se unam fora de campo para fortalecer a modalidade.
Segundo ela: “A mulher não quer ser comparada ao futebol masculino. O que a gente pede é respeito e liberdade para trabalhar, entendendo que o futebol feminino veio para ficar. Nossa luta diária é garantir respeito ao nosso trabalho e incentivar cada vez mais mulheres a ocupar esses espaços.”
A Copa de 2027: Dívida histórica e legado
A proximidade da Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil pautou os momentos mais emblemáticos da mesa. Provocadas por interações com nomes como a repórter esportiva pernambucana Marília Gabriela e a cronista do Bendito Futebol Clube, Beatriz, que falaram sobre criar capacitações para as mulheres visando um legado e sobre a quebra de barreiras internas, as participantes foram categóricas: a visibilidade da Copa não pode se limitar ao mês do torneio.
Poliana, representante da equipe do Juventude no painel, reforçou que o ecossistema do futebol precisa construir um plano estruturado a partir de agora para o “pós-Copa”, garantindo sustentabilidade e continuidade na contratação e formação de profissionais mulheres.
Para Eveline Maia, fundadora do Movimento Nacional Mulheres do Futebol, a vinda do Mundial ao país representa a reparação de uma dívida histórica com uma modalidade que já foi proibida por lei no Brasil. Eveline ressaltou a importância de enxergar o evento não como uma campanha pontual, mas como um plano de legado definitivo, elogiando a atuação de lideranças como Juliana Agatte (Secretária-Executiva do Ministério do Esporte), Chris Gambaré (CBF) e Aline Pellegrino (FIFA).
Questionadas sobre como a imprensa vai ajudar não só neste período de Copa, mas depois também, Poliana ressaltou o papel importante da imprensa para reproduzir notícias, mas destacou o poder do clube de fazer acontecer, incentivar parcerias, convênios com empresas, palestras e outros projetos para que a imprensa possa repercutir.
O painel encerrou com uma reflexão emocionante sobre empatia e formação de equipe: a verdadeira liderança feminina envolve olhar para todas as profissionais do ecossistema — da executiva à trabalhadora que cuida da limpeza e do atendimento nos bastidores —, abrindo portas e capacitando equipes diversas para que o futebol seja, de fato, um espaço acessível e pertencente às mulheres.
Foto: Reprodução / Confut Sudamericana




