Ao apoiarem o sonho dos filhos, Ana Teresa Ratti e Cristiane Dutra construíram carreiras no futebol
O desafio de acompanhar a carreira de um filho atleta motivou duas mães a se especializarem em gestão esportiva. O que começou como uma busca por conhecimento para apoiar essa jornada se transformou em uma nova atuação profissional no futebol brasileiro.
Em entrevista ao Donas FC, Ana Teresa Ratti (cofundadora da Vesta – gestão esportiva) e Cristiane Schreiner Dutra (educadora física e gestora esportiva) contam como a necessidade de compreender o mercado transformou suas trajetórias profissionais.
A busca pelo conhecimento
Mestre em Administração, Ana Teresa Ratti buscou a capacitação em gestão esportiva após seu filho precisar tomar as primeiras decisões dentro do futebol. O garoto, que sempre sonhou em ser jogador de futebol, foi para o alojamento do Palmeiras com 14 anos e recebeu suas primeiras convocações para a seleção sub-17.
“Nesse período, vieram diversas abordagens: gestores de atletas, profissionais oferecendo desenvolvimentos específicos, e começamos a ouvir sobre o “funil do futebol”. Surgiram também questões contratuais com marcas e o próprio clube. Eu e meu marido percebemos que precisávamos tomar decisões sobre temas que não dominávamos. Foi então que busquei me qualificar, fazendo cursos de direito esportivo, gestão e outras áreas para ter mais embasamento”, explicou. “Fiz esse movimento de buscar especialização a partir desse gatilho de ter que tomar decisões sem ter, naquele momento, a base conceitual para fazê-las de forma mais assertiva.”
Cristiane também decidiu se especializar após passar a acompanhar o filho. “Não aconteceu de um dia para o outro, foi um processo. Desde pequeno, sempre fiz questão de acompanhá-lo em treinos, jogos e testes e sempre conversamos muito sobre os bastidores da vida esportiva. A rotina de um atleta visto de fora é muito diferente do dia a dia que eles vivem, principalmente dentro de CTs de Treinamento, e no processo de performance e desenvolvimento profissional. Então, para poder auxiliá-lo e compreender melhor o mundo do futebol, resolvi estudar, fazer conexões com profissionais da área e participar de forma mais ativa na sua formação. A própria evolução da carreira do meu filho e o dia a dia ao lado dele que me fez buscar o conhecimento mais especializado do mundo do futebol e as lacunas que existem na formação integral do atleta”, contou.
O trabalho
A entrada de Ana Teresa no mercado do futebol aconteceu de forma orgânica e não planejada. Todo o seu processo de qualificação foi motivado exclusivamente pelo desejo de contribuir com a jornada do filho, Lucas. “Eu queria entender a indústria, as regulações e tomar decisões com mais embasamento. Não tinha objetivo de atuar profissionalmente”, explicou.
Nesse período, ela foi incentivada por um colega a escrever sobre como atletas poderiam posicionar sua marca e imagem pessoal de forma construtiva. “Eu escrevi um material digital em parceria com Braitner Moreira, hoje meu sócio fundador da Vesta, sobre a imagem do atleta como instrumento para contribuir com o plano de carreira. Não tinha pretensão de me posicionar como profissional da indústria, mas a demanda para falar sobre esse material foi gigantesca e continua até hoje. Resisti no início, depois comecei a participar de debates, e daí para frente foi um processo natural”, detalhou.
Já Cristiane não fez uma mudança radical de carreira, já que para ela, trata-se de uma fusão natural, onde toda sua bagagem educacional serve como base para a gestão esportiva. “Na verdade, considero uma fusão de carreira, não necessariamente uma transição porque acredito que toda bagagem que tenho educacional vem como suporte da Gestão Esportiva, valorizando a formação integral de um atleta. Essa fase tem sido desafiadora e gratificante na medida que estou desenvolvendo diferentes competências e conhecendo pessoas que vem me inspirando cada dia mais a seguir nesse novo caminho profissional”, ressaltou.
A busca por conhecimento dos pais
Ao longo dos anos trabalhando com gestão esportiva, as duas profissionais perceberam que os pais têm buscado se capacitar para acompanhar a jornada dos filhos no futebol. “Percebo uma busca cada vez maior por capacitação dos pais na indústria do futebol e vejo isso com bons olhos”, confessou Ana.
“Digo que não recomendo que todos os pais trabalhem com seus filhos, essa foi a minha jornada, mas não acho que é uma jornada óbvia. Aconteceu de o meu caminho ser este, mas não é por isso que recomendo que seja assim, por uma série de motivos. Entendo que a qualificação e a busca por informação são muito importantes para que as decisões, em conjunto, possam ser tomadas com mais discernimento e critério. Porque realmente com mais conhecimento é possível tomar decisões mais assertivas e coerentes”, acrescentou.
Cristiane também observa esse movimento. “Acredito que cada vez mais os pais estão se interessando em estudar, participar de eventos, aprender de forma geral sobre a indústria do futebol em qual seu filho está inserido. E isso vejo na oferta de cursos que vem aumentando a cada ano na capacitação esportiva”, comentou a gestora esportiva, que ressaltou o quanto aprendeu e evoluiu após começar a estudar.
“Passei a enxergar o futebol como uma verdadeira indústria, um mercado enorme, complexo, mas encantador. E todo esse aprendizado vem me ajudando a desenvolver a visão técnica, estratégica, entender o mercado, as oportunidades, a formação, as ideologias dos clubes, enfim tudo para poder auxiliar o meu filho nas tomadas de decisões de cada passo em sua carreira. A carreira de um atleta é um projeto de vida que exige tanto responsabilidade quanto amor e para isso temos que ter conhecimento e estarmos cercados de pessoas competentes”, complementou.
Conselho para os pais
Por fim, as duas profissionais deixaram um conselho para os pais de atleta. “Busque informação, conhecimento, o entendimento sobre a indústria do futebol. Porque só isso vai permitir que a tomada de decisão seja com autonomia e o mais livre possível da influência e da persuasão daquele que estiver fazendo a abordagem com a família. Com autonomia conseguimos pautar a decisão em informação, em regras, em coisas que são direcionadoras da indústria e não só na opinião deste ou daquele. Porque tem pessoas muito persuasivas, mas que estimulam a família a acreditar em crenças equivocadas”, pontuou Ana.
Cristiane aconselha que os pais mantenham o equilíbrio. “O Conhecimento faz a gente adquirir um discernimento entre o pensar, refletir, participar e ter um posicionamento crítico. Quando os pais desconhecem o esporte e suas especificidades, acabam muitas vezes interferindo de uma maneira que vai além da postura de pai e mãe, querendo assumir posicionamentos de técnicos, gestores, agentes, o que prejudica as relações entre as partes e o atleta. Criam expectativas que podem gerar frustrações, cobranças excessivas e comportamentos invasivos.”
“Eu acredito que é fundamental manter o equilíbrio entre o apoio ao seu filho e a autonomia que ele vai construindo na medida que cresce e tomará suas próprias decisões. Estar presente, incentivar, oferecer estrutura e segurança emocional, mas respeitando sempre o limite de ser pai e mãe, treinador e gestor de carreira. Ouvir, cuidar, estudar para poder ter confiança nos profissionais que o acompanham o fortalecendo como um atleta preparado para o mundo”, finalizou.
Fotos: Arquivo Pessoal




