Documento lançado pelo Instituto Brasileiro de Futebol Feminino destaca desigualdades enfrentadas por atletas, defende mudanças estruturais na modalidade e propõe debate sobre o legado da Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil
A pouco mais de um ano da realização da Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil, o Instituto Brasileiro de Futebol Feminino (IBFF) lançou o manifesto “2027: Pelo Direito ao Topo”, documento que propõe uma reflexão sobre o legado que o torneio pode deixar para a modalidade no país. A iniciativa reúne dados sobre as condições de trabalho das atletas brasileiras, aponta desafios estruturais ainda presentes no futebol feminino e defende medidas para ampliar a profissionalização do esporte.
O lançamento ocorre em um momento de expectativa em torno da primeira edição da Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul. Com investimentos anunciados de R$ 4,2 bilhões para a competição, o Brasil se prepara para receber jogos em oito capitais e ampliar a visibilidade da modalidade. Para o IBFF, no entanto, o impacto do torneio deve ir além dos estádios e da audiência.
“O lançamento em junho de 2026 representa o ponto de virada de um ano para a Copa no Brasil e posiciona o IBFF como liderança ativa na construção do legado social do torneio. ‘Mais do que sediar um evento esportivo global, o Brasil precisa demonstrar capacidade de transformar visibilidade em estrutura’”, afirma Andrea Sucupira, presidente do instituto.
A discussão proposta pelo manifesto parte de um contraste que acompanha o crescimento recente do futebol feminino brasileiro. Enquanto a modalidade conquista mais espaço na mídia, atrai patrocinadores e registra aumento de público em competições nacionais e internacionais, muitas atletas ainda enfrentam dificuldades para exercer a profissão em condições consideradas adequadas.
Segundo dados citados pelo documento, 70% das jogadoras brasileiras precisam manter uma segunda atividade profissional para complementar a renda. O salário médio no futebol feminino é estimado em R$ 10 mil, valor cerca de 100 vezes inferior à média registrada no futebol masculino.
O levantamento também aponta que 80% das atletas estão sujeitas a risco de burnout e que 35% apresentam risco de acidente vascular cerebral (AVC) associado à exaustão e à ausência de protocolos adequados de saúde e acompanhamento.
Os números ajudam a dimensionar uma realidade que permanece distante do cenário de crescimento observado nos principais campeonatos e na seleção brasileira. Questões como infraestrutura limitada, remuneração insuficiente, dificuldade de acesso a serviços especializados e instabilidade profissional continuam presentes em diferentes níveis da modalidade.
Filme acompanha rotina de atletas fora dos gramados
Como parte da campanha, o IBFF lançou um filme dirigido por Cris Vida. A produção retrata a rotina de atletas que conciliam a carreira no futebol com outras atividades profissionais para garantir sustento financeiro.
A narrativa acompanha mulheres que dividem o tempo entre treinos, deslocamentos e jornadas de trabalho, evidenciando obstáculos enfrentados por jogadoras que ainda não conseguem viver exclusivamente do esporte. A proposta é aproximar o público de experiências frequentemente invisibilizadas no debate sobre o desenvolvimento do futebol feminino.
O projeto também se destaca pela participação majoritária de mulheres em sua criação. Segundo o instituto, desde a concepção da campanha até a direção do filme, a equipe foi formada predominantemente por profissionais que atuam diretamente em pautas relacionadas à presença feminina no esporte.
Os quatro pilares do manifesto
O documento está estruturado em quatro eixos considerados fundamentais para a transformação do futebol feminino brasileiro.
O primeiro deles é a Visibilidade Total, que defende maior presença da modalidade nos meios de comunicação e em espaços de divulgação esportiva. A proposta busca ampliar a cobertura regular de competições, clubes e atletas, reduzindo a dependência de grandes eventos para gerar atenção pública.
Já o pilar da Equidade Estrutural aborda a distribuição de investimentos. O manifesto argumenta que recursos destinados ao futebol feminino precisam alcançar categorias de base, centros de formação e projetos de desenvolvimento, fortalecendo toda a cadeia esportiva e não apenas equipes de elite.
Em Remuneração e Sustentabilidade, o foco está nas condições de trabalho das atletas. A iniciativa defende salários compatíveis com a atividade profissional e mecanismos que permitam às jogadoras dedicar-se integralmente ao esporte, sem a necessidade de múltiplas jornadas de trabalho.
O quarto eixo, Direito à Oportunidade, trata da participação feminina em cargos de liderança, gestão e tomada de decisões. O documento aponta a necessidade de ampliar a presença de mulheres em funções estratégicas dentro de clubes, federações, entidades esportivas e organizações ligadas ao futebol.
Debate sobre o legado da Copa
Para Andrea Sucupira, a realização da Copa do Mundo Feminina representa uma oportunidade para acelerar transformações históricas na modalidade. “Mais do que sediar um evento esportivo global, o Brasil precisa demonstrar capacidade de transformar visibilidade em estrutura.”
A presidente do instituto defende que o sucesso da competição não seja medido apenas pelos números de audiência ou pelo impacto econômico do torneio, mas também pela capacidade de promover mudanças permanentes para atletas e profissionais do setor.
Criado para atuar na promoção da equidade de gênero no esporte, o Instituto Brasileiro de Futebol Feminino desenvolve projetos voltados à valorização das mulheres, à ampliação da participação feminina no futebol e à profissionalização da modalidade.
Com o manifesto, a entidade busca inserir o debate sobre direitos trabalhistas, saúde, oportunidades e investimento estrutural no centro das discussões que antecedem a Copa do Mundo de 2027.
A proposta é que o maior evento do futebol feminino mundial funcione como ponto de partida para avanços duradouros, capazes de alterar a realidade enfrentada diariamente por milhares de atletas brasileiras.
Foto: Divulgação / FIFA




