Suzanne Huurman lidera a área médica da seleção de Curaçao e se tornou a única mulher a ocupar o cargo entre as 48 seleções da Copa do Mundo de 2026
Enquanto Curaçao celebra a primeira participação de sua história em uma Copa do Mundo, outra marca inédita se desenrola longe dos gramados. À frente do departamento médico da seleção caribenha está a brasileira Suzanne Huurman, a única mulher a comandar a área médica de uma seleção masculina entre todas as 48 equipes presentes no Mundial de 2026.
Suzanne cresceu em uma casa onde o futebol fazia parte da rotina. Corintiana desde a infância, acompanhava campeonatos brasileiros mesmo após deixar o país aos 10 anos, quando se mudou para a Holanda com a família. A distância não enfraqueceu a ligação com o esporte nem com suas origens.
“O futebol sempre fez parte da minha infância. No dia a dia eu torcia mais pelo Corinthians, mas a verdade é que eu gostava de futebol acima de tudo”, recordou em entrevista recente.
Foi na Europa que ela construiu sua formação acadêmica e iniciou a carreira na medicina esportiva. A combinação entre o interesse pela saúde e a paixão pelo futebol acabou definindo seu caminho profissional. Ao longo dos anos, acumulou experiências em diferentes níveis da modalidade até alcançar alguns dos principais centros esportivos do continente.
Da Holanda ao Real Madrid
A carreira de Suzanne começou a ganhar projeção no futebol holandês. Ela trabalhou no Go Ahead Eagles, integrou a estrutura da seleção holandesa sub-16 e também atuou como consultora do City Football Group no Lommel SK, da Bélgica.
O reconhecimento abriu portas para uma passagem pelo PSV Eindhoven, um dos clubes mais tradicionais da Holanda. Posteriormente, chegou ao Real Madrid, onde trabalhou tanto com equipes femininas quanto masculinas.
A experiência em Madri ampliou sua atuação em medicina esportiva de alto rendimento, área que exige monitoramento constante de cargas físicas, prevenção de lesões e acompanhamento individualizado dos atletas.
Paralelamente, Suzanne também participou de competições internacionais e passou a atuar como FIFA Match Doctor, função exercida em partidas organizadas pela entidade máxima do futebol.
“Sinto-me muito privilegiada pela trajetória que tive até agora. Trabalhei em clubes como PSV e Real Madrid, participei dos Jogos Olímpicos, atuo como FIFA Match Doctor e agora estou vivendo a experiência única de uma Copa do Mundo”, afirmou.
A ligação familiar com Curaçao
Embora tenha nascido no Brasil e construído a carreira na Europa, Suzanne também mantém uma conexão afetiva com Curaçao.
A relação vem da história familiar e dos laços construídos ao longo dos anos com o território caribenho, integrante do Reino dos Países Baixos. A aproximação com a federação local abriu caminho para que ela passasse a integrar a estrutura da seleção nacional justamente no momento mais importante da história do futebol do país.
A classificação para a Copa do Mundo de 2026 representou um marco sem precedentes para Curaçao. A pequena nação caribenha garantiu sua primeira participação em um Mundial e passou a dividir espaço com as maiores seleções do planeta.
Em meio a esse processo, Suzanne assumiu a chefia dos serviços médicos da equipe e tornou-se responsável por coordenar toda a área de saúde da delegação.

O trabalho invisível por trás de uma Copa do Mundo
Em torneios curtos e de alta intensidade, o departamento médico desempenha um papel estratégico. O trabalho vai muito além do atendimento em casos de lesão.
Segundo a própria Suzanne, a medicina esportiva moderna está diretamente ligada à prevenção, ao monitoramento físico e à gestão de cargas de treinamento. O objetivo é reduzir riscos e garantir que os atletas mantenham o melhor nível de desempenho possível durante a competição.
“Antes se acreditava que o médico só aparecia na recuperação de lesões. Hoje existe um trabalho diário relacionado à prevenção, às cargas físicas, aos dados de GPS e ao acompanhamento constante dos jogadores”, explicou.
Durante a Copa, a rotina inclui avaliações clínicas, controle de fadiga, monitoramento de recuperação, planejamento de viagens, acompanhamento nutricional e atuação integrada com preparadores físicos, fisioterapeutas e comissão técnica.
Em seleções como Curaçao, que reúnem jogadores espalhados por diferentes ligas e países, a coordenação médica ganha ainda mais relevância. Cada atleta chega ao torneio com histórico próprio de lesões, carga de jogos e necessidades específicas.
Abrindo caminhos
Suzanne afirma que nunca enxergou sua condição de única mulher como um obstáculo intransponível, embora reconheça que a desigualdade de gênero ainda é uma realidade no futebol.
Ao comentar a descoberta de que era a única chefe médica mulher da Copa, relatou que a situação apenas refletia aquilo que já havia encontrado em boa parte da carreira. “Estou acostumada. Foi assim durante toda a minha trajetória profissional”, afirmou.
Sua presença em um cargo de liderança ajuda a evidenciar uma mudança gradual dentro das estruturas do futebol masculino. Nos últimos anos, mulheres passaram a ocupar mais espaços em áreas técnicas, científicas e de gestão, embora ainda permaneçam sub-representadas em funções de comando.
Para Suzanne, a visibilidade gerada por sua trajetória pode servir de referência para novas gerações de profissionais. “O futebol e a medicina esportiva ainda são ambientes predominantemente masculinos, mas acredito que, com dedicação, trabalho duro e paixão pelo que fazemos, é possível conquistar o nosso espaço.”
Enquanto Curaçao vive a primeira experiência em uma Copa do Mundo, a médica brasileira também escreve um capítulo inédito na história do torneio. Em meio aos grandes nomes do futebol internacional, ela ocupa um posto que nenhuma outra mulher alcançou nesta edição do Mundial.
Foto: Luigino Da Silva De Jesus




