Proposta apresentada pela capitã Alexia Putellas tornará a RFEF a primeira federação a oferecer protocolo de preservação de fertilidade
A Real Federación Española de Fútbol (RFEF) finaliza os últimos detalhes operacionais para assinar, nas próximas semanas, um protocolo inédito no futebol mundial: o financiamento integral do procedimento de congelamento de óvulos para as atletas em atividade da seleção feminina principal. A medida, que tornará a Espanha a primeira federação nacional a institucionalizar o benefício, nasceu de um projeto idealizado pelas próprias jogadoras e apresentado à cúpula da entidade pela capitã e duas vezes vencedora da Bola de Ouro, Alexia Putellas.
A jogadora adiantou a informação em entrevista ao EL PAÍS Semanal, e a federação confirmou a negociação à agência Europa Press.
Na Espanha, o custo médio para a realização da criopreservação ovariana gira em torno de 6.000 euros (aproximadamente R$ 36 mil). Com o convênio em fase final de homologação junto a uma clínica especializada em medicina reprodutiva, os custos operacionais serão assumidos pela entidade esportiva.
Enquanto a federação ajusta as cláusulas que definem os critérios de elegibilidade e o tempo de custeio do armazenamento do material genético, a iniciativa expõe um movimento global de reestruturação das garantias trabalhistas e de saúde para as atletas de alta performance, englobando inclusive diretrizes para o controle de antidoping.
A proposta das jogadoras e o dilema biológico
A sugestão levada à RFEF partiu de reuniões do grupo de lideranças da seleção espanhola. Em declarações ao jornal El País, Alexia Putellas relatou a dificuldade enfrentada por atletas de elite em conciliar a exigência física do futebol profissional com o planejamento familiar e o relógio biológico.
“Para mim isso representa um avanço enorme, porque a Federação entende que você está servindo ao seu país contra o seu tempo biológico; que não pode parar e não pode ser mãe porque precisa do seu corpo para trabalhar”, afirmou a jogadora do London City Lioneses ao veículo espanhol.
Iniciativa pioneira no futebol de seleções
A iniciativa da RFEF seria pioneira no futebol de seleções, apesar de dialogar com um movimento gradual de conscientização sobre os direitos das mulheres em outras modalidades do esporte internacional. Antes mesmo de os clubes estruturarem programas médicos, a pauta da maternidade emergiu a partir da denúncia de penalizações financeiras impostas às atletas.
O caso mais emblemático desse modelo punitivo ocorreu no atletismo: a velocista norte-americana Allyson Felix, dona de sete medalhas de ouro olímpicas, denunciou publicamente que sua patrocinadora tentou reduzir seu contrato em 70% quando ela engravidou. A reação de Felix mobilizou a opinião pública e expôs como a indústria tratava a gestação como uma quebra de produtividade.
Na Inglaterra, o Chelsea FC Women avançou no suporte preventivo ao firmar parceria com a clínica Fertility Plus para lançar o Fertility Fund (Fundo de Fertilidade), cobrindo mapeamento hormonal, apoio a casais LGBTQIA+ e incentivo à avaliação da reserva ovariana. Além de tudo, oferecem aconselhamento e letramento cientifico para atletas e profissionais do futebol fminino do clube, para que possam informa-los da melhor forma.
Em 2025, a Associação de Tênis Feminino (WTA) também atualizou suas regras e passou a garantir a preservação do ranking, sem perda de pontos ou penalizações no ranking mundial, para atletas que se ausentam do circuito para tratamentos de fertilidade, como o congelamento de óvulos. A medida atendeu a reivindicações de jogadoras como a campeã do US Open Sloane Stephens; que congelou óvulos em duas ocasiões e defendeu por um longo tempo o direito de pausa sem perdas esportivas.

Contraponto no Brasil: O protocolo da CBF para a maternidade ativa
Enquanto o modelo europeu viabiliza um planejamento preventivo da gestação, o cenário brasileiro, mesmo com avanços recentes, ainda oferece um amparo restrito às atletas que decidem ser mães durante a carreira ativa. No âmbito global, a FIFA estabeleceu em 2021 a obrigatoriedade da licença-maternidade de pelo menos 14 semanas com salário integral.
Essa regulamentação foi ampliada em 2024 para contemplar mães adotivas e não biológicas, incluir licença por saúde menstrual com ausência justificada sem prejuízo salarial, garantir o direito de exercer outras funções no clube durante o período de transição e determinar protocolos médicos de retorno gradativo.
No Brasil, porém, a implementação dessas diretrizes e de apoios logísticos complementares ainda engatinha. Um dos casos de maior repercussão no país é o de Ketlen Wiggers, maior artilheira da história do Santos.
A atacante manteve a rotina de treinos até o oitavo mês de gestação e retornou aos gramados na temporada seguinte, tornando-se a primeira atleta contemplada por uma nova diretriz da CBF que passou a custear passagens, hospedagem e alimentação para os filhos de jogadoras em fase de amamentação em competições nacionais, além das despesas de um acompanhante.
Por outro lado, o protocolo evidencia um abismo para quem viveu a maternidade antes da medida ou fora da janela de amamentação. Atletas consagradas como a atacante Cristiane, do Flamengo — mãe de dois filhos —, e a atacante Carol Baiana relataram publicamente os desafios de conciliar a rotina de alto rendimento com a maternidade sem terem sido contempladas por esse amparo logístico e financeiro ao longo de suas gestações.
A reação de jogadoras que enfrentaram a privação de rede de apoio, perdas contratuais e a exigência do retorno físico imediato reforça que, embora o custeio de logística para lactantes seja um avanço, o futebol brasileiro ainda não possui uma política institucional contínua que contemple a saúde reprodutiva, a gestação e o planejamento familiar de forma ampla, sem depender de concessões pontuais.
Bastidores médicos e as barreiras do Antidoping (WADA) para congelamento de óvulos
Do ponto de vista da medicina esportiva e do planejamento de temporada para o futebol feminino, a viabilização da criopreservação ovariana exige uma engenharia complexa entre os departamentos médicos e as autoridades de controle de dopagem. O procedimento começa na fase preventiva, com o mapeamento minucioso do perfil hormonal e da reserva ovariana da atleta.
O ponto crítico da operação, no entanto, reside na etapa de estimulação ovariana: ao longo de duas a três semanas, o tratamento utiliza medicamentos hormonais que constam na lista de substâncias monitoradas pela Agência Mundial Antidoping (WADA).
Para evitar que o procedimento resulte em testes positivos ou sanções por dopagem, o departamento médico da federação ou do clube precisa submeter previamente o pedido de Isenção para Uso Terapêutico (TUE). Com a autorização formal em mãos, o ciclo de medicação é alocado estrategicamente durante o período de férias ou nas pausas do calendário FIFA, preservando o rendimento físico da jogadora.
Após a coleta cirúrgica ambulatorial e o congelamento dos óvulos em laboratório especializado, a atleta cumpre um protocolo de readequação física pós-hormonal antes de ser reintegrada aos treinos e reassumir seu lugar na rotina de jogos.
Próximos passos e a expectativa de anúncio oficial
A expectativa da RFEF é formalizar a iniciativa nas próximas semanas de setembro. Tendo em vista todos os fatores para que a iniciativa funcione se adequando as autoridades de controle de dopagem e o planejamento esportivo das atletas, ainda são muitos fatores para serem esclarecidos.
No ato do anúncio, a federação espanhola deve detalhar o regulamento do programa, explicitando as regras de sigilo médico entre atleta e comissão técnica, os critérios de elegibilidade para usufruir do benefício, o tempo de preservação dos óvulos e as diretrizes para atletas que optarem por engravidar durante o ciclo olímpico ou de Copa do Mundo.
Foto: Aitor Alcalde Colomer/Getty Images




