Profissionalização de clubes, recordes de público e maior espaço para mulheres no esporte indicam mudança no cenário da modalidade em Minas Gerais.
A evolução do futebol feminino mineiro nos últimos anos tem sido marcada por profissionalização, crescimento estrutural e maior visibilidade. Durante muito tempo, o futebol feminino em Minas Gerais teve pouco investimento, campeonatos estaduais curtos, baixa cobertura da mídia e estruturas amadoras em muitos clubes.
Mesmo com a tradição do futebol masculino no estado, a modalidade feminina demorou a receber apoio institucional. A Federação Mineira mantinha o Campeonato Mineiro, mas sem grande projeção nacional.
Esse cenário começou a mudar gradualmente a partir da segunda metade da década de 2010, impulsionado por exigências da Confederação Brasileira de Futebol para a manutenção de licenças em competições masculinas e pela ampliação dos torneios nacionais.
Clubes tradicionais como Atlético Mineiro, Cruzeiro e América Mineiro passaram a estruturar departamentos femininos, investir em categorias de base e disputar competições de maior alcance.
Com a presença mais constante de equipes mineiras no Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino e o fortalecimento do campeonato estadual, o futebol feminino no estado passou a viver um novo momento, marcado pela busca por profissionalização, ampliação da visibilidade e consolidação de projetos esportivos que reposicionam Minas Gerais dentro do cenário nacional da modalidade.
A força da organização: como o Cruzeiro impulsionou o futebol feminino em Minas Gerais
A partir de 2019, o Cruzeiro estruturou fortemente o departamento feminino, investindo em elenco e comissão técnica, mesmo com dificuldades financeiras do clube naquele momento, o departamento feminino foi mantido ativo, o que demonstrou compromisso com a modalidade.
Em 2021, a equipe acabou sendo rebaixada para o Brasileirão Série A2, mas o clube não encerrou o projeto, ao contrário, iniciou um planejamento de reconstrução.
Em 2022, o Cruzeiro investiu na reorganização do departamento feminino e conquistou o acesso e elite do futebol brasileiro. No ano seguinte, as Cabulosas passaram a ser mais competitivas, ganhando o bicampeonato estadual e ficando em 8º lugar no Brasileirão pela primeira vez e se classificando para o mata-mata da competição.
Nos últimos anos, a organização do Cruzeiro feminino evoluiu ainda mais com estrutura fixa de comissão técnica, planejamento de temporada e contratações de atletas experientes do cenário nacional.
Atualmente, o Cruzeiro apresenta um projeto esportivo contínuo, crescimento de visibilidade e investimento.
Em 2025, o clube teve a sua campanha mais dominante no estadual, com 49 gols marcados no total e superioridade sobre os rivais. Além disso, no mesmo ano, fez uma campanha histórica no Brasileirão Feminino se classificando pela primeira vez em sua história para a Libertadores, o que tornou o clube como umas das principais referências do futebol feminino brasileiro.
Do pioneirismo pós-proibição à consolidação na era moderna: como é o time feminino do Atlético Mineiro

Em Belo Horizonte, o clube Atlético Mineiro teve papel relevante no processo de retomada da prática esportiva feminina nos anos 1980, período marcado por resistência.
Naquele período, o futebol feminino enfrentava limitações significativas com a ausência de campeonatos regulares, escassez de patrocínio, pouca cobertura midiática e falta de reconhecimento institucional.
Ainda assim, a existência de equipes vinculadas a grandes clubes ajudou a legitimar a prática e a ampliar a participação de atletas em torneios regionais e amistosos, fundamentais para a sobrevivência da modalidade após anos de invisibilidade.
Assim como ocorreu em grande parte do Brasil, o futebol feminino no Atlético passou por períodos de desativação. A ausência de políticas públicas e de exigências da CBF e da Conmebol para manutenção de equipes femininas fez com que muitos clubes encerrassem projetos.
Com a exigência da Conmebol, a partir de 2019, de que clubes masculinos mantivessem equipes femininas para disputar competições continentais, o Atlético retomou oficialmente o projeto feminino, iniciando um processo mais estruturado. Desde então, o clube tem buscado consolidar sua presença nas competições nacionais.
As conquistas do Campeonato Mineiro Feminino entre 2020 e 2022 simbolizam não apenas resultados esportivos, mas também a consolidação do projeto em nível regional.
O clube passou a utilizar centros de treinamento mais adequados, investindo em preparação física, suporte técnico e organização do elenco, e nos últimos anos tem disputado o Campeonato Brasileiro Feminino (Séries A1/A2, conforme temporada).
Apesar dos avanços, ainda existem desafios estruturais, como a necessidade de maior investimento financeiro, estabilidade na elite do futebol nacional e, mais recentemente, a volta de categorias de base femininas como política permanente do clube.
Spartanas em ascensão: a evolução do América Mineiro feminino
A primeira iniciativa do clube com uma equipe feminina aconteceu ainda em 1983, mas o projeto não teve continuidade naquele período. A modalidade voltou a ganhar força apenas décadas depois, quando o América reativou oficialmente o seu departamento feminino em 2015, com a apresentação de um novo elenco e planejamento para disputar competições estaduais e nacionais.
O retorno foi rápido e vitorioso. Logo nos primeiros anos de reestruturação, o América conquistou três títulos consecutivos do Campeonato Mineiro de Futebol Feminino, em 2016, 2017 e 2018, consolidando-se como uma das principais equipes do estado.
A equipe, conhecida como Spartanas, também passou a disputar competições nacionais. Desde a criação do Brasileirão Feminino Série A2, em 2017, o América participou do torneio e seguiu evoluindo até conquistar, em 2023, o acesso inédito à primeira divisão do futebol feminino brasileiro.
Nos últimos anos, o clube também tem presença constante nas fases finais do Campeonato Mineiro de Futebol Feminino, e a equipe segue em processo de crescimento estrutural e técnico, buscando maior protagonismo no cenário estadual e nacional.
Arquibancadas mais cheias: torcida fortalece o futebol feminino mineiro
Com o fortalecimento das equipes, também surgiu a criação e organização de torcidas voltadas especificamente para apoiar o futebol feminino.
Torcedores passaram a acompanhar mais os jogos das equipes femininas, levando bandeiras, cantos e identidade própria para as arquibancadas, o que ajudou a construir um ambiente semelhante ao que já existe no futebol masculino.
O aumento da presença do público nos estádios demonstra esse crescimento. Em 2025, onde a torcida “Desorganizada Cabulosa” fez inúmeras caravanas levando vários torcedores a outros estados, tendo mais visibilidade o que impulsionou mais torcedores a apoiar a equipe feminina.
Ainda em 2025, no primeiro jogo da final do Campeonato Brasileiro, a torcida do Cruzeiro protagonizou um marco histórico no futebol feminino mineiro. No Estádio Independência, 19.165 torcedores pagantes acompanharam o empate em 2 a 2 entre as Cabulosas e o Corinthians. O número superou com ampla margem o recorde anterior de público da modalidade entre clubes em Minas Gerais, que era de 7.829 pessoas, registrado em 2022.
A nova marca não apenas evidencia o crescimento do interesse do público pelo futebol feminino no estado, como também sinaliza um cenário de maior visibilidade e consolidação da modalidade.
Além disso, a rivalidade entre os clubes mineiros também se fortaleceu na modalidade feminina.
Clássicos entre Cruzeiro, Atlético e América passaram a atrair maior atenção do público e da mídia, transformando as torcidas em parte do espetáculo e contribuindo para a consolidação do futebol feminino como produto esportivo relevante no estado.
Fabi Guedes: liderança feminina no futebol mineiro

A treinadora Fabi Guedes ocupa um lugar de destaque ao liderar a equipe feminina do Atlético. Sua presença representa um avanço na participação feminina também fora das quatro linhas, em cargos de liderança e comando técnico.
Fabi Guedes assumiu o time feminino do Atlético em maio de 2025, após passagem como auxiliar técnica em clubes como Red Bull Bragantino, Audax e Santos. Ex-jogadora com 17 anos de carreira, ela também teve passagem pela Seleção Brasileira em 2007 e experiência no futebol inglês antes de iniciar a trajetória como treinadora.
Desde que chegou ao comando das chamadas “Vingadoras”, Guedes teve resultados importantes.
Sob sua liderança, o Atlético conquistou o acesso à Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino, além de alcançar boas campanhas em competições nacionais e estaduais. O desempenho levou o clube a renovar seu contrato até o fim de 2026.
A presença de Fabi Guedes no comando técnico também carrega um simbolismo importante. Ela já foi reconhecida em premiações do futebol brasileiro por sua trajetória e representatividade, sendo considerada uma figura inspiradora para mulheres que atuam no esporte.
Assim, em meio ao crescimento do futebol feminino mineiro, a treinadora se destaca não apenas pelos resultados em campo, mas também por representar maior espaço para mulheres em posições de liderança no futebol, em um cenário ainda majoritariamente comandado por homens.
O futebol feminino mineiro vive um momento de consolidação e expansão. O fortalecimento estrutural de clubes como Cruzeiro, Atlético Mineiro e América Mineiro, aliado ao aumento da presença de torcedores nos estádios, à maior visibilidade midiática e ao surgimento de lideranças femininas no comando técnico, indica que a modalidade atravessa uma fase de amadurecimento no estado.
Embora ainda existam desafios relacionados a investimentos, estabilidade competitiva e ampliação das categorias de base, os avanços recentes demonstram que Minas Gerais passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante no cenário nacional do futebol feminino.
O crescimento das equipes, o engajamento das torcidas e a profissionalização dos projetos esportivos apontam para um futuro em que a modalidade tende a se consolidar de forma mais estruturada, competitiva e visível.
Foto: Foto Tiago Trindade / FMF




