Em painel no Web Summit Rio, treinador da Seleção Brasileira Feminina explicou como criatividade, liderança e tecnologia fazem parte da preparação para o Mundial que será disputado no Brasil
Durante participação no Web Summit Rio, realizado na última quinta-feira (11), no Rio de Janeiro, o técnico da Seleção Brasileira Feminina, Arthur Elias, afirmou que um dos principais erros do futebol brasileiro nas últimas décadas foi tentar reproduzir modelos de jogo distantes de sua identidade. Em painel sobre liderança, criatividade e inovação, o treinador defendeu a construção de equipes de alta performance sem abrir mão das características que marcaram o futebol nacional.
“Enquanto liderança, eu acho fundamental você ter como característica um processo criativo. O modelo de jogo da seleção que eu desenvolvo é diferente do que eu desenvolvi durante muitos anos da minha carreira no Corinthians. Ele é fluido, sempre com possibilidade de inovar, mudar, crescer e aberto à contribuição das jogadoras. Quando a gente fala de inovação, tem a ver com fazer algo mais autêntico. Um erro do futebol brasileiro nos últimos 30 anos foi querer um ‘copia e cola’, um modo de jogar muito distante daquilo que é a nossa identidade, da rua”, afirmou.
Ao falar sobre a construção da Seleção Brasileira Feminina, Elias destacou que o futebol nacional precisava evoluir sem abandonar suas raízes, especialmente na organização coletiva e na disciplina tática. Segundo ele, antes o Brasil seguia reconhecido pela qualidade técnica, por jogar bonito e ter grande individualidade, e pela criatividade individual, mas ainda buscava maior consistência em modelo de jogo, ainda precisava evoluir em organização, ações de jogo e disciplina coletiva.
O treinador, medalhista de prata com a Seleção Brasileira Feminina nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, também ressaltou a importância da confiança no processo de desenvolvimento da equipe. Ele lembrou que, por anos, a Seleção conviveu com a ideia de que não conseguia avançar em fases decisivas, e que a mudança de mentalidade foi determinante para a evolução recente.
Pressão pelo Título da Copa do Mundo de 2027
Na abordagem sobre a pressão por resultados positivos, Elias afirmou que a Copa do Mundo de 2027, que será disputada no Brasil, carrega grande expectativa pelo título da seleção brasileira por ter sido vitorioso por tantos anos no futebol masculino, mas também deve ser vista sob uma perspectiva mais ampla.
“Sabemos que a copa vai ser algo que vai existir essa expectativa, mas a gente sabe que é um legado, uma possibilidade ainda maior fora do campo.”
O treinador também alertou para os efeitos da cultura imediatista no futebol brasileiro. Para ele, a cobrança por resultados pode levar a decisões precipitadas e à interrupção de projetos de longo prazo.
“Começa a atrapalhar as decisões de quem gere o futebol, decisões equivocadas que interrompem os trabalhos”, afirmou.
Inteligência artificial já está no radar da Seleção
Elias também comentou sobre o uso de inteligência artificial no futebol, o técnico da Seleção Brasileira Feminina disse entender que a tecnologia ajuda, mas ainda encontra limitações. Apesar disso, revelou que a comissão técnica já estuda ferramentas de IA para auxiliar na análise de desempenho e na preparação da equipe para a Copa do Mundo de 2027.
Segundo Elias, a tecnologia deve ser usada para complementar o trabalho da comissão técnica e estar alinhada à identidade da equipe, sem substituir a leitura humana do jogo.
“Estamos trabalhando, em um processo de estudo daquilo que pode nos ajudar ou não nos ajuda muito. Até a copa muita coisa pode acontecer, por isso tivemos reuniões e estamos experimentando algumas empresas que começaram a trabalhar, agregar com o que já têm de análise de jogo junto a inteligência artificial, e já direcionando para o modelo de jogo da seleção, que é o importante.”
Ele ponderou, no entanto, que a IA ainda tem limitações para interpretar aspectos subjetivos do jogo, como intenções táticas e fatores emocionais das atletas. Mesmo assim, ele defende o uso da tecnologia como ferramenta de apoio ao trabalho da comissão técnica.
“Tem que haver um equilíbrio entre a inovação e o futebol raiz brasileiro”, concluiu.




