DonasFC

Como Michele Kang pode influenciar o futuro do futebol feminino do Botafogo

Mudança no controle do Lyon pode representar uma oportunidade inédita para o clube carioca desenvolver um projeto de excelência no futebol feminino

Por Suleima Sena | Donas FC

Quando John Textor construiu sua rede multiclubes pela Eagle Football, o futebol feminino raramente aparecia nos slides das apresentações. Agora, a crise societária que ameaça esse projeto pode abrir a porta para algo radicalmente diferente: a chegada de Michele Kang ao comando do Olympique Lyonnais.

E isso muda tudo especialmente para o futebol feminino do Botafogo.

A empresária sul-coreana naturalizada norte-americana chegou a um acordo para assumir aproximadamente 88% da Eagle Football Group, controladora do Lyon. A operação inclui um aporte financeiro para reestruturar as finanças do clube francês e ainda depende de condições previstas no contrato, entre elas a permanência do Lyon na Ligue 1.

A notícia circulou pela imprensa esportiva com foco no impacto para o futebol europeu. Mas há um desdobramento estratégico que o Brasil ainda não discutiu com a devida seriedade: o que essa mudança pode significar para o futuro das Gloriosas?

Não há, neste momento, qualquer anúncio oficial de integração entre os projetos. Mas a mudança de comando abre um cenário que merece ser analisado com atenção.

Quem é Michele Kang e por que ela importa

Antes de falar sobre Lyon e Botafogo, é preciso entender quem é Michele Kang. Ela não é apenas mais uma investidora que descobriu o esporte como oportunidade de mercado. Kang é a pessoa que ajudou a redefinir o futebol feminino global.

Sua trajetória no esporte começou em 2020, quando ingressou como investidora do Washington Spirit, da NWSL. O clube atravessava uma das piores crises de sua história: além dos problemas administrativos, estava no epicentro das investigações sobre abusos cometidos pelo então treinador Richie Burke, caso que sacudiu a governança de toda a liga.

Kang participou ativamente do processo de reestruturação e, em 2022, tornou-se acionista majoritária do clube. Mas seu projeto nunca foi apenas comprar ativos.

“O futebol feminino precisa ser tratado como um negócio próprio — com identidade, metodologia e estrutura independentes do futebol masculino. Não como um departamento subsidiário.” — Tese central de gestão de Michele Kang.

O modelo multiclubes que ninguém tinha tentado antes

Em 2023, Kang deu um passo sem precedentes no esporte mundial. Em parceria com o então OL Groupe, ela criou a primeira organização multiclubes dedicada exclusivamente ao futebol feminino.

A estrutura reuniu o Washington Spirit e o Olympique Lyonnais Féminin, hoje rebatizado OL Lyonnes – sob uma mesma gestão. Depois, incorporou o London City Lionesses, da Inglaterra. Em 2024, esse projeto ganhou nome e forma jurídica: a Kynisca Sports International.

Kynisca Sports International (Ecossistema Global)
  ├── Washington Spirit (EUA)
  ├── OL Lyonnes (França)
  └── London City Lionesses (Inglaterra)

O que a Kynisca compartilha entre seus clubes vai muito além de transferências de atletas. A estrutura integra:

   -Departamentos de ciência do esporte e análise de desempenho;

   -Tecnologia e captação de talentos;

   -Desenvolvimento de treinadoras e medicina esportiva;

   -Marketing e inteligência de mercado.

No mesmo ano, Kang anunciou um investimento de US$ 50 milhões em pesquisa voltada exclusivamente às necessidades fisiológicas das mulheres no esporte de alto rendimento, um campo que a ciência esportiva historicamente negligenciou.

O que muda com o controle do Lyon?

Agora, Michele Kang assume o maior desafio de sua trajetória. Se todas as etapas da operação forem concluídas, ela passará a controlar não apenas o projeto feminino do Lyon, mas o clube como um todo,  com suas equipes masculina e feminina, sua estrutura, sua marca centenária e seu peso institucional no futebol europeu.

O diferencial está no perfil de quem chega. A maioria dos grandes investidores do futebol percorreu o caminho do masculino para o feminino, quando percorreu. Michele Kang fez o trajeto inverso. Ela construiu toda sua reputação e sua filosofia de gestão justamente a partir do futebol feminino. É com essa lente que ela chega ao Lyon.

Onde a SAF do Botafogo entra nessa história?

A resposta está na possibilidade de intercâmbio institucional.

O futuro da relação entre o Botafogo e a estrutura da Eagle Football ainda depende dos desdobramentos da crise societária envolvendo John Textor. Não é possível afirmar, neste momento, que haverá qualquer vínculo formal entre os dois clubes sob o comando de Kang.

Mas se houver alguma aproximação estratégica no futuro, o Alvinegro poderá acessar algo que nenhum clube brasileiro possui hoje: uma das estruturas mais inovadoras e especializadas do mundo em futebol feminino.

E isso vai muito além de empréstimos de atletas. Significa acesso a:

  1. Processos de formação e metodologias de alta performance;

  2. Programas de desenvolvimento de treinadoras;

  3. Uso de tecnologia aplicada ao rendimento fisiológico feminino;

  4. Construção de marca e experiência comercial de alto valor.

Brasil vive uma janela que não se repete

A discussão ganha urgência porque acontece em um momento decisivo: falta 1 ano para o Brasil sediar a Copa do Mundo Feminina de 2027. Nunca houve tanta expectativa simultânea sobre crescimento de audiência, atração de patrocínios e profissionalização do mercado nacional.

Os clubes que estruturarem seus departamentos femininos agora são os que vão colher resultados esportivos e financeiros ao longo da próxima década.

O Botafogo reúne características que poucos possuem no país: é uma marca nacional, tem uma torcida extremamente engajada, opera com o modelo de SAF, carrega tradição e tem capacidade real de construir um projeto competitivo. O que ainda falta é transformar potencial em prioridade.

O verdadeiro investimento não começa pelas atletas

Quando se fala em futebol feminino no Brasil, a primeira reação costuma ser a contratação de jogadoras de nome. É uma lógica compreensível, mas insuficiente.

Michele Kang demonstrou que o diferencial real está antes disso. Está na estrutura, na governança, na ciência aplicada às especificidades do corpo feminino e na criação de ambientes que permitam às atletas atingir seu máximo potencial.

Foi exatamente essa lógica que consolidou o Lyon como a maior potência da história do futebol feminino europeu, e que hoje impulsiona os projetos da Kynisca como referências globais do esporte.

Uma oportunidade que merece ser levada a sério

Ainda é cedo para afirmar que Botafogo e Lyon construirão qualquer projeto conjunto. Seria precipitado transformar uma possibilidade em fato. Mas seria igualmente um erro tratá-la como irrelevante.

Se a nova configuração societária aproximar os clubes, o Botafogo poderá ter acesso não apenas a uma rede internacional de futebol,mas a uma das maiores especialistas do mundo na construção de projetos vencedores para mulheres no esporte.

Em um mercado que ainda busca referências de gestão, talvez a principal oportunidade para o Botafogo não esteja apenas na reorganização de sua SAF. Talvez esteja na chance de aprender com quem ajudou a redefinir o que o futebol feminino pode ser.

E, se isso acontecer, o maior legado dessa mudança talvez não seja visto apenas nos gramados da França. Poderá começar a ser construído também no Rio de Janeiro.

Foto: Getty Image e Maciej Rogowski Photo/ shutterstock.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *