Encontro reuniu especialistas para discutir como consolidar o crescimento do futebol feminino dentro e fora das quatro linhas
O Museu do Futebol, em São Paulo, recebeu no dia 3 de agosto a 3ª edição do Fórum Sustentabilidade em Campo, evento promovido pelo Movimento Sustentabilidade em Campo (MSeC) que discutiu práticas de ESG no esporte brasileiro e os desafios para a Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027, que será sediada no Brasil.
Um dos destaques da programação foi o painel ‘O Esporte Feminino como Plataforma de Negócio: Mídia, Narrativa e Construção de Ídolos’, que reuniu representantes de marcas, comunicação e políticas públicas para debater o crescimento do futebol feminino e as oportunidades de mercado geradas pelo Mundial. Mediado pela jornalista Bianca Venturotti, o painel teve a participação de Chris Massis, comunicadora e embaixadora do MSeC, da estrategista de marcas Lorrany Ritter, da jornalista e fundadora do Donas FC, Suleima Sena, e da especialista em políticas públicas de gênero e saúde Lari Agostini, fundadora da organização Digna Brasil.
Ao abrir o debate, Chris Massis defendeu que o futebol feminino tem a chance de construir um modelo próprio, sem repetir os erros do futebol masculino. “O que nós temos de bom é simplesmente deixar de lado tudo aquilo que não deu certo no futebol masculino e fazer novo com a nossa cara no futebol de mulheres “, afirmou. Para ela, o caminho passa pela base: “Se nós não olharmos para trás, para a base, se nós não olharmos para essas meninas que estão começando a jogar futebol na escola, nos projetos, nas comunidades, nós não vamos conseguir transformar a nossa modalidade numa modalidade melhor, igual ou melhor.”
Lorrany Ritter afirmou que o mercado passou a buscar o futebol feminino com a proximidade da Copa de 2027, mas ainda sem saber como investir de forma consistente. “Fazer um investimento pontual só para a onda da Copa do Mundo vai ser marketing de oportunismo e é um investimento que não faz sentido financeiramente falando”, alertou.
Ela também citou uma visita a meninas da base do Corinthians para ilustrar a falta de referências femininas no futebol. Segundo a empresária, poucas atletas souberam dizer que a Copa do Mundo Feminina de 2027 será no Brasil ou identificar jogadoras do time profissional do clube. “Essa criação da referência da atleta feminina é um problema tão estrutural que, primeiro, a gente precisa entender como fazer isso com a base, com as crianças, com essas meninas, porque elas são a próxima geração”, avaliou.
Narrativa é o problema, não o dinheiro
Suleima Sena rebateu o discurso de que o maior obstáculo do futebol feminino é financeiro. “O problema não é dinheiro, não é falta de investimento, não é falta de visibilidade. O problema do futebol feminino é a falta de visão e de narrativas”, declarou.
A jornalista, que cobriu a Copa do Mundo de 2026 e esteve nos Estados Unidos acompanhando o Mundial masculino, citou o exemplo da NWSL, liga de futebol feminino norte-americana, que levou um jogo ao estádio Citi Field durante a competição masculina e reuniu 44 mil pessoas nas arquibancadas. “Eu vi o futebol feminino ser bem tratado”, relatou, contrastando a experiência com a dificuldade de falar sobre futebol feminino com marcas durante a Copa masculina.
Suleima também afirmou não desejar que o futebol feminino espelhe o masculino: “Eu não desejo que o futebol feminino seja igual ao masculino, porque eu acho que a gente tem uma chance de construir algo melhor do que se a gente vê hoje no futebol masculino.”
Já Lari Agostini trouxe o debate para o campo das políticas públicas e da proteção de atletas. Ela destacou a Lei Geral do Esporte, sancionada em 2023, e a Lei Joana Maranhão, que ampliou o prazo de prescrição para denúncias de violência sexual e psicológica no esporte a partir dos 18 anos da vítima. Segundo Agostini, meninas em contextos de vulnerabilidade social enfrentam riscos adicionais dentro do esporte de base.
“Se a gente tem violência baseada em gênero, racismo e homofobia dentro da sociedade, a gente necessariamente vai ter isso dentro do esporte […] Como que eu garanto que essas meninas sejam protegidas dentro do esporte se elas estão inseridas em contextos de muita vulnerabilidade?”, provocou Lari.
Para a especialista, sem a presença garantida do poder público para assegurar direitos básicos e segurança, torna-se impossível sustentar qualquer narrativa de sucesso a longo prazo: “Nós não temos esporte no Brasil se não tivermos o Estado. Se a gente quer garantir bons números para contar histórias, trazer marcas e criar ídolos, a gente também precisa garantir que essas histórias tenham condições de permanecer”, concluiu.


Foto: Sustentabilidade em campo / @sustentabilidadeemcampo




