Edital Elas em Campo busca fortalecer projetos sociais voltados a meninas e adolescentes de comunidades vulneráveis e ampliar a prática do futebol feminino na base
O futebol feminino vive um momento de crescimento no Brasil, mas o acesso à modalidade ainda é marcado por desigualdades. Para a Fundação Decathlon, ampliar a presença de meninas no esporte desde a infância é uma das formas de enfrentar essas barreiras. É nesse cenário que foi criado o edital Elas em Campo, uma iniciativa voltada a projetos sociais que utilizam o futebol como ferramenta de saúde, desenvolvimento, autoconfiança e inclusão.
Em entrevista ao Donas FC, Emilie Langrené, formada em Marketing e Comunicação e com experiência profissional em agências na França, explicou que a escolha pelo futebol feminino está diretamente relacionada às diferenças existentes entre meninos e meninas desde os primeiros contatos com o esporte. Francesa, ela chegou ao Brasil em 2016 e ingressou na Decathlon no ano seguinte. Desde 2023, está à frente da Fundação Decathlon no país.
“Quando a gente olha quais esportes as meninas começam a praticar e quais esportes os meninos começam a praticar, a gente vê que apenas 5% das meninas embarcam no futebol, contra 34% dos meninos. Então, já na base, temos algumas barreiras”, conta ela, citando dados de uma pesquisa realizada pela Fundação em parceria com o Grupo Consumoteca.
À medida que crescem, o cenário de permanência se torna ainda mais crítico. Dados oficiais da UNESCO apontam que 49% das meninas abandonam o esporte durante a adolescência, um período de intensas transformações físicas e sociais. “A mulher passa por várias transformações ao longo da vida, e a puberdade é um momento muito complexo. Como temos o papel de tornar o esporte acessível ao maior número de pessoas, foi evidente a escolha pelo recorte feminino ao lançar o edital”, explica.

O esporte como ferramenta e a seleção dos projetos
A escolha do futebol para o edital Elas em Campo reflete o peso cultural da modalidade no país e a urgência de reduzir o abismo de gênero na base. Contudo, a visão da instituição ultrapassa as quatro linhas. “Eu diria que é mais sobre o esporte feminino como um todo. Como a gente trabalha com 65 modalidades esportivas, nós temos o público feminino como um público prioritário. O futebol entra nesse recorte, mas queremos aumentar a participação das mulheres no esporte de forma geral, fazer com que mais mulheres pratiquem e permaneçam no esporte”, afirma Emilie Langrené.
Para selecionar os projetos beneficiados, a Fundação estabeleceu um filtro minucioso que avalia a estrutura das organizações antes da análise de impacto. “O primeiro filtro é a seriedade da ONG, com todo um processo de governança, compliance interno, além das verificações jurídicas, administrativas e financeiras. Olhamos também o alinhamento de valores com a Fundação, como generosidade, vitalidade e autenticidade, além da metodologia aplicada, a quantidade de pessoas impactadas e a capacidade de sustentabilidade no longo prazo”, ressalta a diretora.
Muito além do jogo
Para além do condicionamento físico, a iniciativa busca trabalhar a saúde integral de meninas em situação de vulnerabilidade, englobando a saúde mental e emocional e o desenvolvimento de soft skills como liderança e cooperação.
Além disso, o edital incentiva iniciativas comandadas por mulheres, como técnicas e educadoras, mas sem fechar as portas para organizações lideradas por homens.
“Queremos fomentar a liderança feminina porque sabemos o quanto isso inspira e serve de exemplo. Quando você vê uma técnica no comando, entende que também pode ocupar aquele espaço. Mas não queremos ser exclusivas: projetos já existentes que queiram abrir turmas para meninas, mesmo sem uma técnica mulher no momento, também são muito bem-vindos, porque o objetivo final é aumentar o impacto para o público feminino”, pontua Emilie.
Outro critério fundamental é a localização geográfica: as ONGs precisam estar situadas em um raio de até duas horas de distância de uma loja Decathlon.
A proximidade permite o engajamento voluntário dos colaboradores e abre pontes concretas para o mercado de trabalho aos beneficiários, oferecendo dias de imersão corporativa e oportunidades como vagas de Jovem Aprendiz. “Não se trata apenas de apoiar pontualmente, mas de criar conexões de longo prazo e garantir que esses projetos continuem sustentáveis após o aporte”, ressalta Emilie.
O efeito Copa do Mundo e o direito de jogar
Mais do que atingir metas engessadas de atendimento, a Fundação foca no ganho real de escala para as organizações parceiras. “As nossas expectativas são realmente aumentar o número de meninas impactadas. Não temos um número cravado para dobrar ou triplicar, porque cada ONG trabalha na escala e nas condições que possui e não seria realista. O verdadeiro impacto está no número de meninas e adolescentes que vão efetivamente jogar”, reforça Emilie.
Essa expansão da prática ganha ainda mais força com a aproximação da Copa do Mundo Feminina, que será realizada no Brasil em 2027. O evento é apontado pela executiva como um catalisador para atrair e manter jovens no esporte. “Ver a Seleção jogar em casa pode ser um divisor de águas e inspirar uma nova geração de meninas a entrar no esporte”, projeta.
Para Emilie, o impacto mais profundo do projeto reside na possibilidade de garantir às meninas a liberdade de escolha que muitas gerações passadas não tiveram.
“Eu quero que mais meninas tenham a oportunidade de escolher, de poder jogar. Eu cresci na França e nunca tive a oportunidade de jogar futebol porque achava que era para os meninos. Espero que as meninas de hoje não achem normal não poder jogar e tenham a oportunidade de escolher”, conclui.
O edital Elas em Campo surge como um passo concreto para transformar barreiras históricas em oportunidades reais no esporte brasileiro. Ao fortalecer quem já atua na ponta e garantir o direito de jogar desde a infância, a Fundação Decathlon reafirma que o futuro do futebol feminino se constrói na base, com saúde, liderança e a certeza de que o gramado também é lugar de mulher.

Fotos: Decathlon Brasil




