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Ser mãe no futebol: a maternidade deixou de ser um obstáculo no esporte?

A maternidade no futebol feminino está deixando de ser um tabu para se tornar um direito garantido. Conheça os avanços da FIFA, o exemplo de Tamires e o que ainda precisa mudar.

Existe uma pergunta silenciosa que acompanha muitas mulheres no futebol: é possível ser mãe e continuar sonhando? Durante muito tempo, o esporte fez com que acreditássemos que era preciso escolher. Ou você era atleta, ou era mãe.

Entendi isso de forma profunda após o nascimento da minha filha, Chiara. A maternidade mudou meu olhar sobre o mundo e sobre o futuro que desejo para as meninas. Foi nesse processo que o Donas FC ganhou ainda mais propósito. Quando você é mãe de uma menina, as ausências de oportunidades e representatividade no futebol feminino tornam-se nítidas.

Meu objetivo não é apenas cobrir o esporte, mas ajudar a construir um ambiente onde o futebol seja justo para as próximas gerações.

O peso de uma escolha que nunca deveria existir

Durante décadas, a realidade das atletas foi cruel: esconder a gravidez, adiar a maternidade ou abandonar a carreira por medo de perder contratos e salários. A maternidade era tratada como uma ameaça à performance, e não como um processo natural.

Dados da FIFPRO (Federação Internacional de Associações de Futebolistas Profissionais) revelam o tamanho do desafio:

  • Apenas 2% das jogadoras entrevistadas eram mães.

  • 47% acreditavam que precisariam deixar o futebol cedo para formar uma família.

  • Apenas 8% tinham direito a licença-maternidade remunerada.

Tamires, lateral da Seleção Brasileira, deu voz a esse sentimento: “Eu chorei por três dias seguidos. Achava que o futebol tinha acabado para mim”. Ela foi a única mãe entre as 23 convocadas para a Copa de 2019, após ter interrompido a carreira duas vezes pela maternidade.

Redes Sociais Tamires

O marco legal: Quando o jogo começou a mudar

A virada de chave institucional começou em 2021, quando a FIFA estabeleceu regulamentações mínimas de proteção à maternidade. Um caso jurídico foi o grande divisor de águas: a meio-campista islandesa Sara Björk Gunnarsdóttir processou o Olympique Lyonnais após ter seu salário cortado durante a gravidez. A vitória de Sara na FIFA tornou-se o “Caso Bosman” do futebol feminino.

Avanços conquistados em 2024:

Em junho de 2024, a FIFA ampliou essas proteções no Regulamento sobre Estatuto e Transferência de Jogadores (RSTP):

  1. Extensão às treinadoras: Proteção garantida também para quem comanda o time.

  2. Mães não gestantes: Inclusão de direitos para mães adotivas ou não gestantes.

  3. Saúde Menstrual: Direito de ausência remunerada por razões de saúde menstrual.

O desafio atual: A maioria dos contratos no futebol feminino dura apenas um ano. A FIFPRO defende a extensão automática de contratos durante a gravidez para evitar que esses direitos existam apenas no papel.

Mães que protagonizam a história

Hoje, já vemos mães brilhando nos maiores palcos do mundo. Na Copa de 2023 e nas Olimpíadas de Paris 2024, nomes como Alex Morgan, Julie Ertz, Crystal Dunn e Amel Majri provaram que o alto rendimento e a maternidade podem caminhar juntos.

No Brasil, os avanços também chegam à estrutura institucional:

  • Apoio Logístico: A partir de 2026, a CBF custeará viagens de filhos de jogadoras lactantes em competições nacionais.

  • Estabilidade: Licença-maternidade de no mínimo 14 semanas e multas para clubes que descumprirem as normas.

  • Exemplos Reais: Além de Tamires, atletas como Sole Jaimes (que recebeu suporte do Flamengo) e Ary Borges mostram que a rede de apoio é fundamental.

Essa transformação ultrapassa as quatro linhas. Ver jornalistas e narradoras mães ocupando espaços em transmissões globais envia uma mensagem poderosa para as próximas gerações: seus sonhos não precisam ser interrompidos.

O que ainda precisa mudar?

Apesar das vitórias, o cenário ainda é desigual. Cerca de 75% das jogadoras relatam que seus clubes não oferecem suporte especializado (como creches ou fisioterapia pós-parto). Além disso, muitas das 211 federações filiadas à FIFA ainda não implementaram as regras locais. Como diz Alexandra Gómez Bruinewoud, conselheira da FIFPRO: “Direitos que não podem ser exercidos não são direitos reais”.

Um futuro de liberdade para nossas filhas

Hoje, quando olho para a Chiara, vejo o porquê de lutarmos por um futebol mais acolhedor. Queremos um esporte onde as meninas possam sonhar sem medo de escolher entre a carreira e o desejo de ser mãe.

Nenhuma mulher deveria abandonar seus sonhos para viver a maternidade. E nenhuma mãe deveria sentir que o futebol não é mais o seu lugar.

arquivo pessoal Suleima Sena

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